domingo, 17 de fevereiro de 2013

Nem Aqui Nem na China



Por princípio, não leio a Revista Veja.
Quem acompanha minimamente este humilde blog sabe por que.
Apenas agora, e graças a uma mensagem que recebi de um grande amigo, tomei conhecimento de que na sua última edição de janeiro ela publicou uma coluna assinada pelo jornalista J.R. Guzzo, sob o nome “Namorando com o Suicídio”.
Versa, em geral, sobre a violência que se vê no Brasil, e, em particular, sobre aquela que se volta contra os policiais.
Em nome de tudo em que acredito, e pelo que tenho lutado ao longo dos anos, não posso me furtar a tecer alguns comentários sobre ele.
Se você se interessar pelos mesmos, sugiro que antes dê uma lida no referido artigo. Você o encontra neste link: http://arquivoetc.blogspot.com.br/2013/01/artigo-jr-guzzo-veja.html
Leu?
Então, vamos examiná-lo juntos.
Em primeiro lugar, não enxergo em qualquer jornalista que publique na Revista Veja autoridade moral para criticar criminosos.
É que todos tendemos a sucumbir à ideia de que crime é apenas aquele violento, aquele de sangue. Mas não é. Existe uma categoria de delitos, tão hediondos quanto, e que não envolvem violência ou sangue. Quais? Os crimes do colarinho branco. Talvez sejam até mais graves, porque em grande medida contribuem para a disseminação incontrolada da violência em si. Pode-se afirmar sem grandes medos de errar que uma diminuição significativa na corrupção, nos ladrões de gravata, geraria desdobramentos positivos nos índices de violência.
Entretanto, esse não é o tema agora, de modo que talvez em outro momento possamos examinar com mais cuidado os mecanismos através dos quais isso se dá.
O que tem a Veja com isso? Simples. Até as colunas do templo de Atenas sabem que ela é cúmplice, no mais sórdido sentido da palavra, de inúmeros crimes de colarinho branco praticados pelo notório bandido Carlinhos Cachoeira. Em prol de objetivos próprios e inconfessáveis colaborou com ele, incentivou suas práticas, acobertou-o, favoreceu-o. É, portanto, criminosa também. Seus chefes só não vão a julgamento porque o Brasil ainda não juntou força – ou coragem – para enfrentar e moralizar a grande e inescrupulosa mídia que o desgraça.
Então, de qualquer forma, pode-se afirmar que essa revista colabora para a ocorrência, no Brasil, da violência da qual o articulista põe a culpa exclusiva no Governo.
Alto lá, portanto. Devagar com o andor.
É no mínimo temerário dar crédito aos rotos, quando se referem criticamente aos esfarrapados.
Assim, toda a lenga-lenga do Sr. Guzzo padece de nada menos do que um vício de origem. É malnascida.
O que, a meu ver, já é suficiente para abastardar-lhe irremediavelmente o conteúdo.
Este último, no entanto, por suas próprias e disparatadas mazelas, merece ser analisado e rebatido, ponto a ponto.
Até porque não passa de um amontoado mal enjambrado de clichês, que não apenas não se sustenta ao menor sopro de uma análise mais séria, como mal consegue esconder interesses e objetivos escusos a serviço, como não poderia deixar de ser, dos ideais dos donos da revista, hoje os mais ativos e visíveis atores políticos da extrema direita brasileira.
Para poupar você, meu sacrificado leitor, de um texto demasiado longo, vou tentar pinçar do artigo em questão, para analisá-las, apenas as asneiras mais gritantes.
A isso, portanto.
Começa sua investida o nosso intrépido articulista fazendo uma comparação, em números absolutos, entre o Brasil e a França.
Isso é de um absurdo atroz.
Equivale mais ou menos a analisar bananas utilizando laranjas como parâmetro.
A França é imensamente menor do que o Brasil. Sua população é três vezes inferior à nossa. E, principalmente, seu estágio de desenvolvimento social, econômico e político é incomensuravelmente mais avançado.
Pura má-fé do cara, portanto.
Na sequência, ele afirma que o Brasil, por omissão, está dando aos bandidos uma espécie de salvo-conduto para matar policiais. Que por acharmos que o problema é apenas dos dois “contendores”, todos lavamos as mãos.
Revela-se, aqui, de maneira particularmente marcante, o principal defeito de toda a invectiva. Feroz, raivosa mesmo, mostra o que considera seriíssimas distorções, e aponta o dedo acusador em várias direções, ora para achar culpados, ora para denunciar inércia diante da barbárie. Só não se importa, em momento algum, de formular o mais frágil fiapo de sugestão para um caminho que os “inertes responsáveis” deveriam seguir! Fácil, simples, acusar os outros. Típico.
Essa atitude, porém, tem uma forte razão. É o simplismo, essencial e obrigatório, do argumento. Se abandonar esses predicados, ele morre de inanição. Furta-se, nosso indômito analista – e o faz por descarada má-fé –, de mencionar o fato de que há, no ambiente invocado por ele, pelo menos dois tipos totalmente distintos de mortes de policiais praticadas por bandidos.
E que, em decorrência, duas são as realidades a conhecer e duas as metodologias a utilizar para combatê-las.
O primeiro tipo é o que se verifica na chamada “linha do dever”. Decorre da periculosidade inerente à própria função, e ocorre nos confrontos com marginais, aos quais todo e qualquer policial do mundo, por definição, está sujeito na sua atividade diária.
É da essência do trabalho.
Estes são heróis. Todos. Merecem as maiores homenagens. Corporificam a mais nobre das atribuições policiais, que é a de escudo da sociedade.
O segundo tipo de morte é bastante mais complexo do que isso.
São os assassinatos puros e simples. Não atingem policiais exercendo seu mister. Alcançam, traiçoeiramente, pessoas comuns, escolhidas para morrer em virtude de sua profissão.
(O fato de que estes homicídios com certeza respondem pela esmagadora maioria das mortes de policiais ocorridas em 2012, em São Paulo, escancara ainda uma vez o despautério da comparação com a França, cujas vítimas certamente se enquadram todas apenas no primeiro tipo.)
A compreensão desse fenômeno, de suas causas e desdobramentos, exige uma análise séria, profunda e detalhada, que precisa inevitavelmente, entre outras coisas, debruçar-se sobre o próprio modelo policial brasileiro. Por princípio, deve ser isenta de maniqueísmo, tentação de qualquer exame superficial.
Acontece que a omissão dessa análise faz parte da estrutura interna do argumento utilizado por Guzzo, que é, além disso, e por natureza, maniqueísta. Se escapasse de tais armadilhas, veria ruírem por terra todas as premissas que embasam seus pontos de vista.  E, pior que isso, correria o risco abominável de desagradar os interesses de seus patrões.
Para fugir de tão ingrata obrigação, o audaz articulista recorre à mais velha, desmoralizada e desgastada das estratégias: desqualificar, mediante pura desonestidade intelectual, os que pensam de maneira diversa da dele.
Verdade!
Nosso amigo, sem sequer corar de vergonha, afirma textualmente que a cultura brasileira consagrou a ideia de que reprimir o crime seria atentar contra a democracia! E que, nesse seara, a principal função do Estado seria a de, em lugar disso, combater a violência da polícia!
Será que meu cérebro não me enganou? Será que alguém em plena propriedade de suas faculdades mentais é capaz de uma afirmação tão estúpida?
Infelizmente, sim. Está lá. O cara escreveu isso mesmo.
Eu, de minha parte, vejo aí um ovo de serpente. Fascismo, mesmo. Puro e simples fascismo. Extrema direita. Furibunda. Perigosa.
Explico.
A visão combatida pelo articulista é aquela que a direita acostumou-se a designar pejorativamente como de “militância pelos direitos humanos”.
Escrevi certa vez que a elite brasileira, além de extremamente hábil, é uma das mais cruéis e implacáveis do mundo.
Utilizando-se dessas duvidosas qualidades, submete o conjunto restante dos brasileiros, desde sempre, a um severíssimo regime de opressão.
Chega a torná-lo seu aliado, convencendo-o de que essa ordem injusta é a melhor que pode existir.
Ocorre que na faixa mais baixa dos oprimidos a revolta muitas vezes estoura sob a forma do crime.
Duvida? Então explique pra mim por que diabos os autores de crimes violentos são sempre originários das camadas humildes? Por que é que na cadeia só tem preto e pobre? O número de criminosos violentos oriundos de outros extratos sociais é estatisticamente insignificante! Resume-se a crimes passionais, uma ou outra disputa patrimonial, ou distorções de personalidade.
À elite, cujo método de opressão é por natureza violento, só ocorre responder com violência. Ao invés de contemplar a hipótese de permitir a criação de vias de acesso dos oprimidos a mais cidadania, circunstância que certamente diminuiria de forma altamente significativa as opções pela criminalidade, ela só sabe responder com aumento da repressão.
Mais violência. Penas mais duras! Redução da maioridade penal! Mantenha-se a ralé no seu devido lugar, a qualquer custo! Vendetta!
O resultado é e sempre será pífio. A história está recheada de exemplos. Ou alguém acha que a lei dos crimes hediondos, que endureceu fortemente as penas para crimes mais graves há mais de 20 anos, contribuiu minimamente para diminuí-los?
Ou alguém sério discorda de que violência só é capaz de produzir mais violência, num círculo sem fim?
Embora expressamente não proponha nada, o fato é que o artigo do Sr. Guzzo está de forma evidente, mesmo que sub-reptícia, advogando o puro e simples endurecimento. Mais do mesmo. Baixar o pau. Como convém, aliás, a alguém que trabalha para a direita fascista.
Isso satisfaz, claro, a mais baixa sanha de vingança. Mas, do ponto de vista de redução dos índices de criminalidade, não resolve absolutamente nada.
Há um momento no artigo em questão onde o ódio se revela pelo teor das expressões utilizadas. Guzzo entende que os governos estão apavorados por “defensores de minorias, viciados em crack, mendigos, vadios e por aí afora”. Ai, que horror! A escória! Mendigos? Oh ! Vadios? Oh! Viciados? Meu Deus, segreguem-nos, prendam-nos, matem-nos se for preciso, mas por favor tirem-nos debaixo de minha preciosa e cultivada vista!
               Os excluídos, para Guzzo, devem ser mencionados entre aspas. A ironia asquerosa contida nessa atitude é por demais reveladora.
Para nossa elite cheirosa – e, claro, seus perdigueiros travestidos de porta-vozes – a simples ideia de melhorar a situação melhorando a condição social e a qualidade de vida dos destituídos é por demais odiosa.
No fundo, sabe que este é o caminho correto para atacar a criminalidade na sua estrutura, nas suas causas.
Mas não suporta sequer pensar nisso. Porque talvez – e apenas “talvez” – signifique ter que abrir mão de um fiapinho que seja dos privilégios aos quais foi acostumada pelos séculos afora. Deus nos livre!
Então, a saída é apenas o sarrafo. Aquele, bom e velho, que ela sempre manipulou tão bem.
Do outro lado estamos nós, os odiados “militantes dos direitos humanos”. Aqueles que, além de tudo, lutam pela solução verdadeira, que implica em mais justiça social.
 Aqueles, que “só se preocupam com os direitos dos criminosos, e não dão a mínima para os das vítimas”. Já ouviu esse clichê? Pois é. Arma dos ingênuos, ou apenas dos de má-fé, ele se repete como mantra por aí afora. Mesmo sendo simplista e, sobretudo, falso.
A má-fé reside exatamente no maniqueísmo.
Para melhor me explicar, vou transcrever literalmente a frase do nosso indômito analista: “... se espalhou pelo Brasil, a ideia de que reprimir delitos é uma postura antidemocrática — e que a principal função do estado é combater a violência da polícia, não o crime.”
É evidente que o articulista atribui essa “ideia” à cultura dos direitos humanos. Em outras palavras, aos “militantes”.
Outra vez, porém, ele é primário. Se por ignorância ou má-fé, deixo para vocês decidirem. Segundo ele, as atitudes só podem ser excludentes entre si. Assim: preocupar-se com o direito de criminosos é incompatível com a possibilidade de fazê-lo com o das vítimas; se o Estado combate a violência policial não pode combater o crime. É invariavelmente “ou um ou outro”.
Falso. Outra vez, falso. É esta a desqualificação à qual me referi. As atitudes NÃO são excludentes. É perfeitamente possível fazer com que convivam simultaneamente.
Ao afirmar o contrário, o indômito articulista deturpa, de forma desonesta, as posições dos “militantes” que tanto precisa combater.
Porque o que fazemos é exatamente o oposto. As posições convivem, e não se excluem.
Defendemos os direitos humanos de todos, algozes e vítimas (até porque aqueles, mesmo criminosos, não perdem sua condição de seres humanos; além do mais, sua punição está prevista em lei, e deve ser outorgada NO RIGOR, mas também nos limites, da lei). E entendemos que é possível – e necessário! – combater o crime e também a violência policial.
Então, Senhor Guzzo, preste atenção, por favor. Vou repetir: é função do Estado combater a violência.
Ponto.
Toda violência! Qualquer violência!
(Aviso aos navegantes: claro que a violência policial a que me refiro aqui é aquela ilegal. Sim, porque existe a violência legal, que a polícia tem autorização para praticar, quando necessário para garantir a ordem pública. Chama-se “uso legal e progressivo da força” e pode chegar a ser até letal. Quando praticada corretamente, nada tem de criminoso. Pelo contrário.)
Não se distingue sua origem.
Violência é violência, seja quem for que a pratique. A violência policial é tão crime quanto qualquer outro!
Todos sabemos que um policial fardado, no exercício de seu dever, é a face mais visível do Estado. Então, se pratica uma ilegalidade, é o Estado que a está praticando.
Ora, para quem não sabe, há uma forte razão para que a palavra “Direito” se coloque como qualificativo da expressão “Estado Democrático”, que tivemos tanta dificuldade para conquistar, e no qual nos orgulhamos de viver. Forte, mas bem simples. No Estado Democrático de Direito, todos devem estar submetidos ao império da lei.
Todos, mas principalmente o Estado. Quando avaliza uma ilegalidade, ele, o Estado, se torna ilegal. Vai daí, arruína o próprio conceito de Estado Democrático de Direito.
É simples assim.
Se não combater a violência policial ilegal, o Estado a estará praticando, e, com isso, nada mais nada menos do que solapando a Democracia. A mesma Democracia da qual ele, Estado, deve ser o mais forte e zeloso guardião.
É pouco?
Não significa isso, em hipótese alguma, como quer fazer crer o Sr. Guzzo, “amolecer” no combate ao crime.
Absolutamente. Como disse, ambas as coisas podem e devem ser conduzidas com igual vigor, e simultaneamente. Até porque, a rigor, são uma só. Ambas são crime.
Se o Sr. Guzzo pensa que as instituições que menciona (ONGs, corregedorias e ouvidorias, etc.) fazem com que a fiscalização sobre as polícias seja exagerada, talvez deva usar de seu próprio método, e dar uma olhadinha em outros países. Ficaria espantado com o nível de controle, interno e externo, existente mesmo naqueles que para os de sua ideologia são tidos como paraísos.
Para terminar, há mais uma mentira do cara, a desmascarar.
Escreveu ele: Sua última invenção (dos “militantes”, decerto), em São Paulo, foi proibir a polícia de socorrer vítimas em cenas de crime, por desconfiar que faça alguma coisa errada se o ferido for um criminoso; com isso, os policiais paulistas tornam-se os únicos cidadãos brasileiros proibidos de ajudar pessoas que estejam sangrando no meio da rua.
                             "Desconfiar", sr. Guzzo? DESCONFIAR??
                             "Alguma coisa errada", sr. Guzzo? ALGUMA COISA ERRADA????
                           Isso é realmente o que eu chamaria de esperta (espertíssima!) utilização de eufemismos.
                     Ninguém "desconfia" de nada. Sabe-se! E o que se sabe? Sabe-se que "alguma coisa errada" são assassinatos puros e simples, sumárias execuções de suspeitos feridos em tiroteios com a polícia, que rotineiramente ocorrem no interior das viaturas policiais, no trajeto entre o local do tiroteio e o hospital.
Mentira, portanto. Deslavada mentira.
Primeiro porque os policiais paulistas não estão sozinhos. Os do Paraná os precedem, porque a proibição nasceu aqui. Lá só foi copiada.
E seu fundamento, acima informado, mas eufemisticamente manipulado pelo Sr. Guzzo (Deus o livre se fizesse diferente, arruinaria seu argumento!...), é simples, embora terrível.
Constatou-se que um suspeito de crime, baleado por policiais, que fique sangrando na rua até a chegada do SAMU ou SIATE, tem chances muito, MUITO maiores, de chegar vivo ao hospital, do que se for para lá conduzido pelos próprios policiais, mesmo que isso demore mais.
É, como disse, uma verdade terrível, mas nem por isso menos real. Constatada por fatos, Sr. Guzzo. Provado pela enorme quantidade de suspeitos que embarcam nas viaturas feridos, mas vivos, e que chegam ao hospital mortos.
Atestado pela sanha de justiçamento que grassa em nossas polícias. Justiçamento esse que pode parecer muito saboroso quando se pensa em crime primariamente, como um simples jogo de “vendettas”. Mas não quando se preza pela legalidade.
Até porque, Sr. Guzzo, mesmo para o desgosto dos raivosos, não existe pena de morte no Brasil. E, ainda que existisse, acusar alguém de crime punível com ela, decidir pela procedência dessa acusação, sem direito de defesa, e, então aplicá-la sumariamente, não são atribuições da polícia.
Nem aqui nem na China.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Contradição em Termos



                Peço permissão ao amigo leitor para chamar-lhe a atenção sobre alguns fatos.
                No dia 02 de outubro de 1992 a Polícia Militar do Estado de São Paulo invadiu a Casa de Detenção da sua Capital, localizada no Carandiru, a fim de debelar uma rebelião que lá ocorria. Da ação decorreu a morte de pelo menos 111 pessoas que estavam sob custódia naquele estabelecimento. Nenhum policial se feriu.
                Várias testemunhas afirmaram que inúmeros presos foram sumariamente executados após terem se rendido.
                Segundo algumas versões, um dos desdobramentos do episódio foi a fundação do PCC – Primeiro Comando da Capital[1], hoje a organização criminosa mais temida do País. Alega-se que entre seus objetivos está “vingar os mortos” daquele massacre, e, ainda, evitar que ele se repetisse.
                Em 17 de abril de 1996 dezenove camponeses sem-terra foram mortos em ação da Polícia Militar do Pará, no município de Eldorado dos Carajás, ação essa cujo objetivo era meramente desobstruir uma estrada. “Segundo o legista Nelson Massini, que fez a perícia dos corpos, pelo menos 10 sem-terra foram executados à queima roupa”.[2]
                Em 2009, após uma sequência de episódios nos quais pessoas que haviam sido apreendidas com vida pela polícia chegaram mortas ao hospital, o Governador Roberto Requião, do Paraná, proibiu os policiais militares de prestarem socorro a pessoas feridas em tiroteio, principalmente aqueles travados com eles próprios.
                Recentemente o Governador Geraldo Alckmin, de São Paulo, tomou medida idêntica.
                No dia 30 de maio de 2012 o jornal Gazeta do Povo, de Curitiba, informou que a ONU recomendava a extinção da Polícia Militar, no Brasil, acusada de inúmeras execuções extrajudiciais. E pedia maior esforço para extirpar dessas corporações os notórios “esquadrões da morte”.[3]
                Nos últimos meses de 2012 a cidade de São Paulo foi tomada por uma onde de violência letal, aparentemente inexplicável, contra policiais militares. Vários foram brutal e covardemente assassinados. Na sequência verificou-se que era tudo mais um capítulo daquela guerra travada entre integrantes da Polícia Militar e – ele de novo! – o PCC[4]. As execuções eram retaliações infindáveis, de parte a parte, com a corporação estatal igualando-se aos bandidos, matando-os também sumariamente, ao alvedrio individual do(s) policial(is) envolvido(s).
                Dias atrás, também na Gazeta, foi denunciada a lei da mordaça na Polícia Militar do Paraná[5]. A liberdade de expressão, pilar maior da democracia, não vige dentro dessa corporação. Ao se pronunciar, sua direção ainda piorou as coisas. Declarou, segundo o jornal, que a expressão é livre a qualquer policial, desde que se restrinja exclusivamente a comentário sobre ocorrências atendidas por ele, ou a assuntos relacionados à sua área de atuação. Disse ainda que “sobre políticas de administração ou assuntos institucionais da Polícia Militar, são policiais específicos que se pronunciam”.
Ou seja, confirmou a mordaça. Ninguém tem permissão para falar justamente sobre o que interessa. Só “policiais específicos”, ou seja, os porta-vozes. Quer dizer, ao distinto público só pode chegar a versão oficial. Trata-se da filosofia “roupa suja se lava em casa” que, no caso, só não leva em consideração o detalhe de que a “casa” pertence, na verdade a esse mesmo público, que é, também, quem a sustenta.
                Poderia eu gastar mais algumas laudas de papel com episódios do mesmo tipo. Eles existem em grande profusão. Considerando, porém, a paciência do leitor, pincei apenas alguns dos mais significativos.
                Com eles em vista, não posso deixar de me perguntar: quando, enfim, a sociedade brasileira vai começar verdadeiramente a questionar o seu modelo policial?
                Quando é que os olhos se abrirão e perceberão que a distorção já foi longe demais, e que já passou da hora de atacar o problema de forma estrutural?
                Quando vamos dar consequência a uma verdade que todos conhecemos e que insistimos em fingir que não vemos e que é a de que algo está muito, muito errado?
Essa verdade está por demais escancarada! Polícia, por definição só pode ser um organismo indutor da solução de conflitos. Ou seja, um instrumento da paz. Não lhe é possível qualquer outra função. Ora, militar é um profissional voltado para a guerra. Está no dicionário: “militar: relativo à guerra ou às tropas”[6]. Não é à toa que entre seus sinônimos, enquanto substantivo, o dicionário elenca “beligerante”, “combatente”[7], e enquanto verbo, “combater”, “lutar”, e “pugnar”[8]!
Tudo absolutamente incompatível com a função de uma polícia verdadeira e correta.
                “Polícia Militar”, então, é nada menos do que uma contradição em termos.
                Não é de espantar que ela esteja, em todo o Brasil, permanentemente envolvida em autênticos atos guerreiros.


[1] Ver, por exemplo, http://pt.wikisource.org/wiki/Estatuto_do_PCC e http://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_do_Carandiru, ambos acessados em 22/01/2013. Friso que são apenas suposições, algumas baseadas em declarações alegadamente atribuídas aos fundadores do PCC.
[2] Em  http://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_de_Eldorado_dos_Caraj%C3%A1s, acessado em 22/01/2013 – o grifo é meu.
[6] Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, em http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=aurelio, acessado em 22/01/2013.
[7] Em “Dicionário Online de Português”,  http://www.dicio.com.br/militar/, acessado em 22/01/2013.

domingo, 30 de dezembro de 2012

O Pesadelo Carcerário


O discurso imutável, espécie de mantra dos costumeiros arautos do apocalipse, insiste em que um dos grandes problemas da criminalidade, no Brasil, é a impunidade dos criminosos.
Talvez isso seja verdade quanto àqueles de colarinho branco, ou de maior poder aquisitivo, muitos dos quais, aliás, poderão ser encontrados exatamente dentre esses próprios arautos.
Mas certamente não é no que toca ao bom e velho triplo “p”: preto, pobre e prostituta.
Esses são punidos, sim senhor, e muito. Em quantidade e, também, em qualidade.
São tantos que não existe lugar para pô-los.
Por isso vivem em situação sub-humana, atirados em cárceres que podem, sem nenhuma desvantagem, ser comparados a verdadeiras masmorras medievais.
Tenho dito sempre que não é possível resolver o problema carcerário no Brasil, em razão do número e da velocidade em que se efetuam prisões e mais prisões. Governo algum, no mundo, possui capacidade para ampliar a quantidade de vagas em condições de acompanhar.
Está claro, então, que o problema não é nas vagas, mas no número de pessoas que precisam preenchê-las.
Algo de errado há em uma sociedade, quando ela consegue produzir mais criminosos do que locais onde colocá-los.
Isso ocorre porque o foco está errado. A prioridade deve ser outra. Sem descurar dos locais, é preciso priorizar as pessoas.
Deve-se, sim, aumentar as vagas. Mas é muito mais importante diminuir o número de criminosos aos quais elas se destinam.
É mais ou menos (em sentido figurado, claro), como corrigir a gestão financeira de uma empresa deficitária. Qualquer principiante no tema sabe que o segredo não é apenas incrementar a receita, mas também minimizar a despesa.
Havendo menos criminosos, menor será o número de vagas necessárias.
Pois bem. Graças a uma distorção cultural que nos é imposta de cima para baixo, e de forma sutil mas implacável, o triplo “p” carrega o estigma do crime. Eles são total e evidentemente destituídos de poder, em virtude de ocuparem as posições mais baixas da pirâmide socioeconômica. Então à sociedade, governada que é justamente pelas outras camadas dessa mesma pirâmide, pouco se lhe dá.
Quer apenas extirpar esse “mal” de seu convívio, afastando-o dos seus imaculados olhos.
Analisar em profundidade, e tentar solucionar as causas do fenômeno, significa sair da zona de conforto, em benefício de pessoas que “não importam”. Cidadãos de segunda classe. Vocês hão de convir, é muito trabalho.
É. Mas tem um preço. É caro, e está chegando a hora de pagá-lo.
As condições carcerárias aumentam o crime porque não apenas favorecem a reincidência, como a aperfeiçoam. O resultado explode, claro, no colo do conjunto da sociedade que, atônita, por nunca ter sabido agir, não sabe como reagir.
Os arautos do apocalipse que me perdoem. Há sim, punição no Brasil. Até demais. Ela só não dá os resultados esperados pelo “senso comum”. O que prova que não estamos no caminho correto. Além de atacar as causas ao invés de acomodar-se visando as consequências, há também muito o que rever sobre a quem se pune e, sobretudo, como se pune.
Saiu esta semana, na BBC Brasil de Londres – de credibilidade inatacável – uma matéria a respeito deste tema. A quem estiver interessado, aí vai o link:


Destaco, por muito importante:
Em 1992, o Brasil tinha um total de 114.377 presos (74 por 100.000 habitantes). Em julho de 2012, apenas 20 anos depois, já eram 549.577 (288 por 100.000 habitantes). Isso representa um aumento de 380,5% no número total de presos e de 289,2% na proporção por 100 mil habitantes. No período, a população total do país cresceu 28%.
É apavorante. Simplesmente apavorante.
Naquele mês, havia um déficit de 250.504 vagas nas prisões do país. Mais de 50%.
Em seis meses, de dezembro de 2011 a julho de 2012, o número de encarcerados no Brasil cresceu de 514.582 para os atuais 549.577. Um aumento de 34.995, ou 5.832,5 por mês, ou 194,42 por dia.
Não há quem aguente.
“Por mais esforço que o Estado faça, não dá conta de construir mais vagas no mesmo ritmo”.
Quem disse isso foi ninguém menos do que o diretor do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), do Ministério da Justiça, Augusto Rossini.
E há mais.
Um dos maiores especialistas do mundo no tema, segundo o artigo, o finlandês Matti Joutsen, diretor do Instituto Europeu para Prevenção e Controle ao Crime (Heuni), órgão consultivo da ONU, afirma categoricamente:
"Seus cidadãos estão preocupados com mais roubos ou assaltos? Aumente a punição. Há mais histórias sobre tráfico de drogas na mídia? Aumente a punição. Houve algum caso particularmente repulsante de estupro ou sequestro? Aumente a punição. Nunca se importam em tentar melhorar as políticas sociais, oferecer aos criminosos em potencial alternativas de vida ou investir em medidas de prevenção".
“Segundo ele, essas alternativas ‘não trazem as mesmas promessas de recompensa imediata nas urnas’. 'Endurecer contra o crime' sempre cai bem com a sua base política e é certamente um chamariz de votos’, afirma”. (os grifos são meus).

Realmente, acho que não é preciso dizer mais nada.









sábado, 15 de dezembro de 2012

Homicídios de Jovens nos Territórios da Paz de São José dos Pinhais - 2012 (até 25/11)


Mortes Violentas – 2012 – Crimes Curitiba – 15 – 24 anos
            Grande Borda do Campo - 7
             Grande Guatupê  - 13

Total: 20
 
2012
idade
sexo
bairro
causa morte
35
M
J. ALEGRIA
tiros
20
M
KM107 – BR116
tiros
25
M
BORDA DO CAMPO
tiros
17
M
J. ALEGRIA
degolado
42
M
RIO PEQUENO
tiros
36
M
BORDA DO CAMPO
tiros
28
F
BORDA DO CAMPO
tiros com PM
55
F
BORDA DO CAMPO
tiros
42
M
CENTRO
tiros
18
M
SÃO MARCOS
tiros
43
M
JARDIM IPÊ
tiros
22
M
SÃO MARCOS
tiros
21
M
PEDRO MORO
tiros
21
M
J. INDEPÊNDENCIA
tiros
22
M
JARDIM CRISTAL
tiros
27
M
JARDIM CRISTAL
tiros
28
M
JARDIM IPÊ
tiros
22
M
BORDA DO CAMPO
tiros
23
M
CENTRO
tiros
19
M
J. INDEPÊNDENCIA
tiros
22
M
J. ALEGRIA
tiros
25
M
J. ALEGRIA
agredido
34
M
QUISSISSANA
agredido
37
M
VILA SUIÇA
7 tiros
26
M
RIACHO DOCE
tiros
30
M
JARDIM ARISTOCRATA
tiros com PM
26
M
JARDIM ARISTOCRATA
tiros com PM
20
M
JARDIM ARISTOCRATA
tiros com PM
34
M
J. INDEPÊNDENCIA
agredido
27
M
AGARAÚ
tiros
28
M
QUISSISSANA
tiros
16
M
RIO PEQUENO
tiros
65
M
J. CARMEM
facadas
32
M
J. INDEPÊNDENCIA
tiros
25
M
J. CRUZEIRO
tiros
24
M
IGUAÇU
tiros
22
M
BORDA DO CAMPO
agredido
28
M
CENTRO
6 tiros
25
M
QUISSISSANA
tiros
32
M
JARDIM IPÊ
tiros
38
M
JARDIM IPÊ
tiros
28
M
JARDIM IPÊ
tiros
25
M
BORDA DO CAMPO
tiros
50
M
J. CRUZEIRO
tiros
22
M
CAMPESTRE
tiros
20
M
VILA BRAGA
tiros
19
M
KM102 – BR 116
tiros
24
M
J. IZAURA
agredido
41
M
AFONSO PENA
tiros
41
M
OURO FINO
tiros
27
M
SÃO MARCOS
tiros
31
M
C. RIO GRANDE
facadas
30
M
GUATUPÊ
tiros
21
M
GUATUPÊ
7 tiros
23
M
GUATUPÊ
tiros
38
M
GUATUPÊ
tiros
17
M
SÃO MARCOS
tiros
30
M
J. CRUZEIRO
tiros
41
M
J. ITAQUI
TIROS
22
M
OURO FINO
TIROS
15
M
CIDADE JARDIM
TIROS
18
M
BORDA DO CAMPO
TIROS
11
M
J. ALEGRIA
FACADAS
45
M
BORDA DO CAMPO
FACADAS
32
M
J. ITALIA
TIROS
27
M
C. LARGO DA ROSEIRA
TIROS
32
M
C. LARGO DA ROSEIRA
ESTRANGULAMENTO
15
M
J. CRUZEIRO
TIROS
27
M
BORDA DO CAMPO
TIROS
24
M
BORDA DO CAMPO
TIROS
38
M
BORDA DO CAMPO
7 TIROS
13
M
VILA INÁ
TIROS COM PM
22
M
BORDA DO CAMPO
TIROS
20
M
ALVORADA
TIROS
36
M
GUATUPÊ
TIROS
42
M
CAMPUS PUC
TIROS
19
M
RIO PEQUENO
10 TIROS
21
M
JARDIM IPÊ
TIROS
21
M
QUISSISSANA
TIROS
20
M
JARDIM IPÊ
TIROS
20
M
QUISSISSANA
TIROS
59
M
QUISSISSANA
TIROS
19
M
J. ITALIA
TIROS
33
M
VILA INÁ
TIROS
24
M
CENTRO
TIROS
NI
M
GUARICANA
NI
29
F
JARDIM IPÊ
NI
27
F
JARDIM IPÊ
TIROS
23
M
CONTORNO LESTE
TIROS
52
F
J. CARMEM
TIROS
20
M
J. ALEGRE
TIROS
39
M
AFONSO PENA
TIROS
22
M
JARDIM IPÊ
TIROS
27
M
J. FÁTIMA
FACADAS
27
M
J. INDEPÊNDENCIA
TIROS
23
M
AFONSO PENA
TIROS
15
M
BORDA DO CAMPO
TIROS
23
F
J. VENEZA
TIROS
21
M
VILA BRAGA
FACADAS
55
M
VILA BRAGA
TIROS
26
M
J. VENEZA
TIROS
30
M
QUISSISSANA
FACADAS
26
M
QUISSISSANA
TIROS
38
M
C.JARDIM
10 TIROS
51
M
AFONSO PENA
NI
22
M
COLÔNIA MURICY
17 FACADAS
17
M
J. JUREMA
TIROS COM PM
26
M
BR376 KM 26
TIROS
68
M
JARDIM IPÊ
TIROS
20
M
J. CRUZEIRO
TIROS
19
M
C.RIO GRANDE
TIROS
21
M
C.RIO GRANDE
TIROS
59
M
AFONSO PENA
TIROS
26
M
BORDA DO CAMPO
TIROS
30
M
C. LARGO DA ROSEIRA
FACADAS
21
M
CONTENDA
TIROS
58
F
QUISSISSANA
CARBONIZADO
29
F
GUATUPÊ
TIROS
82
M
JARDIM IPÊ
TIROS
25
M
SÃO JUDAS TADEU
TIROS
28
M
GUATUPÊ
TIROS
26
M
PEDRO MORO
TIROS
20
M
J. ITALIA
TIROS
27
M
J. INDEPÊNDENCIA
TIROS
20
M
CAMPESTRE
AGREDIDO
16
F
RIO PEQUENO
ESTRANGULAMENTO
28
F
JARDIM IPÊ
DESFACELAÇÃO
28
M
ZACARIAS
TIROS
22
M
GUATUPÊ
TIROS
35
M
BORDA DO CAMPO
TIROS
19
F
ALVORADA
TIROS
18
F
AGUAS BELAS
TIROS
18
M
QUISSISSANA
TIROS
15
M
BORDA DO CAMPO
TIROS
19
F
ITALIA
18 FACADAS
33
M
QUISSISSANA
FACADAS
31
M
GUATUPÊ
TIROS
35
F
GUATUPÊ
TIROS
32
M
BORDA DO CAMPO
TIROS
31
M
IPÊ
TIROS
38
M
GUATUPÊ
TIROS
40
M
C. LARGO DA ROSEIRA
TIROS
27
M
CONTENDA
TIROS
26
M
AFONSO PENA
TIROS