domingo, 5 de fevereiro de 2012

Meu Ponto de Vista - 3 - Cuba e os Diversos Aspectos da Liberdade (Parte I)


Eu sei, eu sei, eu sei. O propósito do blog é debater o Brasil. E Cuba fica fora. Ok. É verdade.
Mas mesmo assim, peço licença. Quem não estiver interessado, por favor pule esta parte.
Por outro lado, no mundo de hoje, tudo diz respeito a tudo. E de certo modo repercute aqui o que acontece em toda parte.
Por isso, me desculpem, mas acho que interessa, sim.
Então, vamos lá.
Houve um tempo da minha vida em que fui comunista. Acreditava, de forma idealista e até meio ingênua, que se poderia consertar o mundo mediante meia dúzia de medidas. Toda eram pré-definidas, vinham prontas em um pequeno pacote teórico-ideológico.
Exatamente nessa época veio a redemocratização do Brasil, e a legalização do PCB – Partido Comunista Brasileiro, ao qual eu era filiado. Membro de sua direção municipal em Curitiba, acabei ocupando algum espaço na imprensa. Afinal, os comunistas tinham sido os bodes expiatórios de todas as atrocidades que se haviam perpetrado no País até então, e éramos a grande novidade do cenário. Éramos, portanto, o objeto de toda a curiosidade.
À época, o Muro de Berlim ainda estava em pé, o Leste Europeu era “socialista”, e a Guerra Fria vivia seus últimos estertores. O mundo era bipolar, dividido entre Ocidente Capitalista e Oriente Comunista.
Estávamos no início da década de 1980.
Lembro-me de que nas entrevistas que então concedi, a grande questão era a liberdade. Tratava-se de consenso absoluto, entre todos os formadores de opinião, que nos países socialistas ela simplesmente não existia. E pronto. Isto, por si só, já bastava para que eles não prestassem. “Do lado de cá”, entretanto, não senhor. Aqui, a liberdade era plena, o que, a priori, nos absolvia completamente de tudo.
Era simples assim. Preto de um lado, branco de outro. Culpados e inocentes. Tudo resolvido.
Podíamos dormir em paz, nossas consciências tranquilas. Estávamos no lado certo. Éramos os mocinhos. Combatíamos o bom combate.
E aí, de repente, surgiam esses pentelhos comunistas, bem aqui, dizendo coisa diferente. Que história era essa? E vinham nos perguntar.
Entre outros, eu era um a responder. O problema era que nós éramos tão maniqueístas quanto eles. Havíamos sido submetidos a uma lavagem cerebral quase tão eficaz quanto. E para nós, o preto e o branco, o mocinho e o bandido, apenas mudavam de lado.
Eu estava cheio de certezas e verdades, todas elas tão absolutas quanto engessadas e absurdas.
Minha resposta no quesito liberdade, como todas as demais, vinha pronta e acabada. “Liberdade? Que liberdade? Liberdade não existe! Nos países capitalistas, liberdade nada mais é do que um bem que se compra com dinheiro!”.
E citava, petulante como costumam ser os jovens cheios de si, os carrinheiros pelos quais passava, todos os dias, sobre o viaduto Capanema, a caminho de casa. Maltrapilhos, precocemente envelhecidos, miseráveis, puxavam, com as mãos nuas, em carrinhos de madeira, enormes quantidades de papel, por longos trajetos para, ao fim, serem explorados por intermediários que lhes pagavam preços ínfimos e revendiam o papel com lucros estratosféricos.
Pedia, então, ao jornalista, que os entrevistasse, e perguntasse o que achavam da LIBERDADE que tinham para passar as férias, todo ano, nas Bahamas...
E exultava, triunfante.

(continua...)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Viva o STF!

Ontem a sociedade brasileira conseguiu mais uma importantíssima vitória.
Os membros do Judiciário podem, sim, ser fiscalizados diretamente pelo Conselho Nacional de Justiça!
Lenta, mas inexoravelmente, os valores democráticos vão se impondo.
Foi duro, foi apertado (6 a 5), mas a transparência venceu.
E caiu a última cidadela protegida das vistas da sociedade.
Sosseguem, céticos. Ainda falta muito, eu sei.
Mas reconheçam: é inegável que estamos avançando.
Então, que me perdoem os pessimistas, que só sabem ver a fotografia, isto é, o quadro estático, que ainda é ruim.
Acho muito mais correto ver o filme, que proporciona uma visão dinâmica. É ruim, sim, e isso nos motiva a persistir na luta para melhorar. Mas já foi muito pior, vem ficando melhor aos poucos mas continuamente, e isso nos mostra que a luta vale a pena.
Ainda há muito a fazer.
Até porque o próprio controle social permanece débil e claudicante.  A politização da população é pouca, e consiste no maior desafio. Mas o caminho está aberto.
Mãos à obra, portanto!
Continuo otimista.
Viva o STF, que aproveitou a chance que a História lhe colocou à porta, e mostrou-se à altura dela.
E viva o Brasil!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Homicídios

            Nesta semana a Secretaria Estadual de Segurança Pública divulgou as estatísticas de 2011, relativas à área. A maior preocupação, quando se inicia um mapeamento são os crimes mais graves. E o mais grave, claro, é o crime letal. O homicídio. Preocupa a todos, e com muito mais razão, aos gestores.
            No Paraná como um todo, os homicídios caíram, de 2010 para 2011, 5,8% (cinco vírgula oito por cento).
Alegra-me informar que em São José dos Pinhais esse índice é bastante maior. Varia, conforme a metodologia aplicada, entre 14% (catorze por cento) e 17% (dezessete por cento).
É o resultado de inúmeros fatores. Destaco, por relevante, o extraordinário nível de integração e cooperação que no ano de 2011 alcançaram, em nosso Município, as Polícias, Civil e Militar, e a Guarda Municipal.
Fenômeno raro, foram deixadas de lado vaidades e pretensões pessoais, e priorizado o interesse público. O encontro, no tempo e no espaço em São José dos Pinhais, de profissionais, tanto no topo como na base, no ano que passou, do mais alto gabarito, capacidade, e boa-vontade é em grande medida responsável por resultado tão auspicioso.
Não posso deixar de ressaltar também o papel das políticas preventivas, recém iniciadas pelo Município, de forma integrada por todos os seus gestores, mas que já encontram ressonância na auto-estima da comunidade, principalmente a mais carente, que pela primeira vez se enxerga como sujeito pleno de direitos.
No entanto, é preciso cautela.
O mês de janeiro de 2012 não foi nada animador.
De nada adiantará um ano bom se ele não configurar uma tendência. Os números caíram mas ainda são altos. Muito altos. Precisam se manter em queda.
E a julgar pelo primeiro mês do ano, é preciso redobrar o cuidado.
Abrir o olho e reforçar o trabalho.

Meu Ponto de Vista - 2 - O Pronasci

Recentemente, o jornalista Elio Gaspari, uma voz respeitadíssima em todo o Brasil, escreveu um artigo na imprensa nacional criticando acidamente o Pronasci – Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania, do Governo Federal.
Desde que assumi a Secretaria Municipal de Segurança, em São José dos Pinhais, tenho sido um ardoroso defensor desse mesmo programa. Inclusive, batalhei muito para trazer recursos dele para nossa cidade, e estamos desenvolvendo vários projetos, com resultados bem animadores.
Por isso, escrevi um modesto artigo contestando-o (uma espécie de Davi contra Golias), que foi publicado na Gazeta do Povo, jornal aqui da nossa região metropolitana de Curitiba.
Para quem estiver interessado, segue:


É Preciso Priorizar a Prevenção

No dia 4/1 Elio Gaspari publicou na Gazeta o artigo “Dilma Congelou o Pronasci”, com críticas a este Programa do Governo Federal.
Não poderia estar mais equivocado.
Firmado em um conceito ultrapassado de segurança pública, prega um modelo que felizmente vem sendo sepultado pelo povo brasileiro, na construção de sua jovem democracia, e sintetizado na seguinte frase: “A segurança pública é uma atribuição dos governos estaduais”.
O pensamento decorre de que estes últimos comandam as polícias, e endossá-lo é estar na contra-mão da história real do Brasil de hoje.
A ideia de que segurança pública é só polícia está superada. Apenas os saudosos do autoritarismo suspiram por ela.
O Pronasci é uma lufada de ar na masmorra que sempre foi o cenário brasileiro na área da segurança, e cuja melhor expressão é a concepção acima.
Ao contrário dela, incorpora o novo tempo. Oficializa a ideia-força de que a segurança pública JAMAIS vai melhorar se se resumir a ações de polícia. Elas são necessárias, claro, mas não bastam. É preciso priorizar a prevenção. O que não se faz só com viaturas nas ruas. No Brasil, prevenção é sinônimo de inclusão social. Ações que ofereçam aos jovens excluídos a perspectiva de uma vida digna do lado de cá da lei. Senão continuaremos enxugando gelo, como fizemos nos longos anos em que praticamos aquela máxima.
A consagração desse conceito – ações sociais de inclusão de jovens vulneráveis como uma questão de segurança pública em sentido estrito – é a gigantesca inovação do Pronasci. E é uma monumental quebra cultural de paradigma.
Mais ainda se pensarmos que as resistências a vencer incluem pessoas tidas por esclarecidas!
Claro que o Pronasci tem problemas gerenciais, que há verbas desviadas ou mal empregadas. Como não seria assim? A democracia brasileira é tenra, é enorme a diversidade de vícios dos quais temos que nos livrar, e cada um deles se encontra fortemente incrustado nas pessoas.
Cabe corrigir esses problemas. Mãos à obra!
No entanto, há méritos a constatar, conquistas valiosas a celebrar! Há bons gestores e estes tem o que mostrar!
Basta verificar o que já alcançaram, Brasil afora, os projetos “Mulheres da Paz”. “Protejo” e “Justiça Comunitária”. São, todos eles, pilares do Pronasci, executados pelos municípios em parceria com a União. É segurança pública da mais pura, sem governo estadual envolvido. É importante conferir isso antes de formar juízo.
Há histórias maravilhosas, vidas salvas, consciências despertadas, pessoas resgatadas. Há uma quantidade já apreciável de violência evitada, sorrisos de valor incalculável, esperança em almas antes desacorçoadas, emoções em olhos antes embaçados.
Pouco ainda, talvez, diante da imensidão do desafio.
Mas um começo. E animador.
E o ênfase na qualificação das polícias, principalmente para incutir-lhes visão comunitária? É também um caminho longo e árduo, mas é a única esperança de uma polícia melhor, e já foi iniciado. No Pronasci.
Outra quebra de paradigma é o Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGI-M).
Oferecer cidadania é dar às pessoas um pouco de tudo. Estes órgãos reúnem as secretarias municipais de corte social para, juntas, gerenciarem os projetos que afetam diretamente as populações mais fragilizadas, de forma a que os elementos caminhem juntos de forma otimizada e integrada, pondo fim à fragmentação gerencial que emperra tantas boas intenções.
Hoje muitos municípios já possuem GGI-M.
Os céticos dirão que existir não é o mesmo que funcionar bem.
É verdade. Porém, deu-se o primeiro passo. Este é um dos transatlânticos cujo curso necessitamos alterar. É tarefa difícil, porque são gigantescos, e apontar a proa na direção certa exige tempo e espaço de manobra. Mal começamos, mas as primeiras espumas já se distinguem à popa. Só não as vê quem teima em olhar para o outro lado.
A Conferência Nacional de Segurança Pública, em 2009, precedida de grande mobilização popular, aprovou o Pronasci como política de Estado, e não unicamente deste ou daquele Governo.
Todos os que se dedicam a examinar a questão percebem que os tempos são outros, os conceitos mudaram, e o Pronasci é o reconhecimento oficial disso.
A população, portanto, o aprova, o que não significa dizer que não carece de aprimoramento.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Meu Ponto de Vista - 1 - O CNJ

Como todo mundo, tenho opiniões acerca de várias questões da nossa realidade brasileira em geral.
Vou aproveitar este espaço que estou conquistando junto a mim mesmo e a alguns poucos abnegados, para externá-las.
Sempre que eu for fazer uma dessas reflexões, vou intitular a postagem como “Meu Ponto de Vista”, de modo que quem não estiver interessado na minha opinião sobre coisa alguma já sabe que deve pular este pedaço.
Vamos lá.
Hoje, claro, o assunto não poderia deixar de ser o Conselho Nacional de Justiça. É o tema do momento.
Como todos devem saber, nesta semana o Supremo Tribunal Federal vai decidir quais são as atribuições desse órgão no que diz respeito à fiscalização sobre os juízes brasileiros.
De um lado, órgãos da magistratura defendem que o CNJ só pode intervir após as Corregedorias dos Tribunais regionais atuarem.
De outro, amplos setores representativos da sociedade entendem que essa intervenção pode – e deve – se dar de forma direta.
O pano de fundo é a manutenção ou não de privilégios que historicamente beneficiaram os juízes de nosso País, e a chegada da luz e da transparência ao último bastião público a elas ainda imune, nos dias de hoje, o Poder Judiciário.
Lembro quando me formei advogado, nos idos de 1975. Era o período mais duro da ditadura militar. Vigoravam leis de exceção, poucos tinham noção do que eram exatamente esses tais Estado Democrático de Direito e Império da Lei.
Juízes eram semideuses. Desembargadores, então, os próprios senhores do Olimpo.Todo-poderosos, inalcançáveis, senhores do bem e do mal, da vida e da morte.
           Personalidades inquestionáveis. E inquestionadas. Deus-o-livre falar mal de algum.
No entanto, no meio jurídico da planície (nós, os humildes advogados), era senso comum que existia corrupção. Todos lidavam com isso como fato notório – aquele que independe de comprovação. Claro, sei que essa circunstância não faz disso verdade, mas eram tempos em que denunciar não se podia, quanto mais apurar!
De qualquer modo, o mais provável é que de fato houvesse. Afinal, isso tende a ocorrer em todas as áreas do setor público, em todos os países do mundo. E obviamente piora de forma exponencial quando o agente se sabe totalmente a salvo de olhares indiscretos, trabalhando nos desvãos escuros do poder isento de qualquer controle social.
Naquele tempo, Legislativo e Executivo desfrutavam também desse salvo-conduto. Nos dois a corrupção era igualmente endêmica. E, quanto a eles, da mesma forma, Deus-nos-livre abrir a boca para criticar.
Pois é.
O que mudou, de lá para cá?
Isso mesmo. Acertou quem disse que acabou a ditadura.
Hoje estamos sob o império da lei, vivemos o pleno estado democrático de direito. Os privilegiados esperneiam, mas está cada vez mais difícil escapar do controle social (isso, aliás, é tema para um outro “Meu Ponto de Vista”, que virá mais adiante)
Hoje vemos o cidadão exercendo de forma plena o direito de examinar com lente de aumento tudo o que se faz em seu nome, e com seu dinheiro. O nome disso? Transparência.
Em corolário, hoje o cidadão exerce de forma plena o direito de berrar contra o que discorda, em ambos os aspectos.
Executivo e Legislativo, coitados, já sofrem o diabo.
Sei, sei, a corrupção continua grassando em ambos, dirão os céticos.
É verdade. Sou obrigado a concordar.
Mas pense o seguinte. Se a corrupção fosse um furúnculo, a primeira medida para curá-lo não seria abrir a ferida e expor o carnegão? (Gostaram da palavra? Carnegão é o núcleo do furúnculo; aprendi isso com minha avó, lá nos primórdios da infância).
Com ele exposto, aí então aplica-se o remédio.
Pois é a mesma coisa.
Hoje, o carnegão do Executivo e do Legislativo já está aí, exposto aos quatro ventos. O remédio, ainda que seu efeito seja bem mais lento do que gostaríamos, já está sendo aplicado. É a democracia, que traz em seu ventre a politização do povo, a elevação do nível do seu esclarecimento, de modo a que se mobilize cada vez mais em favor da punição dos corruptos e da eleição de gestores melhores e mais íntegros.
Na ditadura fica tudo na sombra e a população nem mesmo fica sabendo das falcatruas que proliferam, para poder se revoltar contra elas.
E o Judiciário?
Por que foi que ninguém ainda buliu com o Judiciário?
Ele ficou quietinho no canto dele, até agora, se fingindo de morto.
E a verdade é que sua estrutura permanece exatamente a mesma dos tempos ditatoriais.
Salvo notáveis exceções, os juízes permanecem enxergando a si próprios como seres distintos do cidadão comum, pessoas acima do bem e do mal.
Será que é porque não são eleitos? Não precisam agradar ao povo, para pedir voto de quando em quando? Talvez.
Só que ela, a sociedade, já não os vê assim. Nesses vinte e tantos anos de democracia, ela evoluiu de forma surpreendente, para tão pouco tempo. E para ela, o magistrado nada mais é do que um outro servidor público. E, portanto, sujeito exatamente aos mesmos deveres de todos os demais. Dentre esses, o de submeter-se permanentemente ao controle dela, sociedade, neste que é o mais eficaz antídoto à corrupção até hoje descoberto pelo homem.
Não se confunda, porém, tais deveres com a responsabilidade ou a missão de cada servidor. A do magistrado, evidentemente, é das mais nobres, fundamental mesmo até para a existência e subsistência do próprio Estado de Direito, alicerce maior da democracia, e por ela eles merecem o maior reconhecimento e toda a valorização profissional.
Ao meu ver, é exatamente essa confusão que permeia, de forma artificial, o debate sobre o CNJ.
Grande parte dos juízes, acostumados a escrutinar mas não a serem escrutinados, não vêem com bons olhos a recente investida do CNJ sobre suas trajetórias.
Lembremos um pouquinho do que vem a ser este organismo.
Ele foi criado em 2005, como resultado de um grande movimento de pressão popular e política destinado justamente a fornecer à sociedade algum controle sobre o Poder Judiciário. Esse movimento já enfrentara, na época, tenaz resistência corporativa da magistratura, que já antevia ali uma ingerência “indevida” em suas entranhas.
Nesses quase sete anos de atividade, entretanto, o órgão já contribuiu de forma significativa para sanar ou minimizar algumas das inúmeras mazelas da Justiça brasileira, mostrando, ainda uma vez, o bem que faz democratizar, arejar e levar transparência a qualquer instituição.
Muito bem.
O CNJ possui uma Corregedoria, cuja função é fiscalizar a magistratura.
Ocorre que os Tribunais, nos Estados, também possuem Corregedorias próprias, com função teoricamente idêntica.
Nos últimos tempos, a do CNJ resolveu “fuçar” de forma mais aprofundada alguns indícios muito fortes de irregularidades cometidas em alguns tribunais do País.
A reação corporativa não se fez esperar.
Dizendo (e aí a confusão artificial) que se pretende atingir as prerrogativas dos juízes, a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) impetrou uma ação junto ao Supremo Tribunal Federal, argumentando que a corregedoria do CNJ não poderia fazer isso antes que as Corregedorias dos Tribunais o fizessem.
E obteve uma liminar dando-lhe provisória razão.
Nesta semana o STF se reúne para confirmar ou revogar a liminar.
Meu Ponto de Vista é que deveria revogar.
Historicamente, as Corregedorias dos Tribunais estaduais não funcionam, ou funcionam muito mal, no quesito apuração e punição de irregularidades praticadas por juízes. Os números existem, e são decididamente alarmantes.
Se ficar por conta delas – ou seja, interna corporis – lá se vai mais uma conquista da democracia, sacrificada no altar do corporativismo, esse câncer que corrói tantos setores no Brasil (e que renderá – aguardem – outro “Meu Ponto de Vista” futuro).
A liminar foi concedida pelo Ministro Marco Aurélio Mello, jurista a quem muito admiro não só pelo seu grande saber, mas também por sua integridade. No entanto, considero-a equivocada por excesso de legalismo. Ateve-se à letra de lei de forma a meu ver bitolada, sem levar em conta a influência do contexto histórico e real sobre o caso concreto.
Ora, qualquer pessoa que lide com as leis (o que nós, os “iniciados” chamamos pomposamente de “operadores do Direito”) sabe que a interpretação menos indicada delas é aquela que se limita à sua literalidade. O próprio STF tem nos dado um rio de exemplos de julgamentos em que a lei é interpretada de forma flexível, mais sintonizada com a realidade vivida no momento do que com sua letra estrita. Querem um exemplo significativo? A união homoafetiva. Outro? A fidelidade partidária (os mandatos pertencem aos partidos e não aos candidatos eleitos).
Cabe ao juiz – e aí está ele agora, senhores, julgando sobre tema que atingirá a si próprio, e, portanto, usufruindo de uma oportunidade ímpar de mostrar ao País sua própria grandeza – adequar o Direito e a Lei ao momento real, porque se não o fizer será atropelado por ele.
O STF já deu inúmeras provas de que sabe fazê-lo. Vive, agora, seu momento supremo (sem trocadilho bobo). Se ratificar sua postura, entrará para a história deste País. Se negá-la, atirará ao lixo a credibilidade do próprio Judiciário (porque mostrará, de forma segura e detestável, que pimenta nos olhos dos outros é refresco), com conseqüências danosas para todos nós.
             Mesmo que o faça, porém, ainda assim há avanços a comemorar. Esta é a primeira vez, na história do Brasil, que o Judiciário é colocado na berlinda. Já é um enorme progresso. Se não for ainda desta vez que conquistaremos seu bastião, será uma pena. Mas com certeza, haverá uma próxima. E, então, nos aguardem.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Debate

Um debate do qual participei, recentemente, na CNT, sobre a importância da correção das estatísticas em Segurança Pública:

Debate CNT

Bem-vindos

É com alegria e muita honra que registro a chegada, como membros deste humilde blog, de Tatiana Rahuam e do Guarda Municipal Cadaval, de Foz do Iguaçu, que se juntam a Wercellis e Júlia, colegas de trabalho, e Bruno, meu filho.
Acho que não está nada mau, para um espaço criado há meros onze dias.
Sejam todos bem-vindos.
Se estiverem gostando do conteúdo, por favor, divulguem para mais pessoas.
Se não, critiquem, e também divulguem.
E, por favor, interajam. A ideia maior é o debate.
Grande abraço.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Entrevista no Programa Conversa Política

Assista entrevista que concedi, no ano passado, no canal a cabo da RPC:

Entrevista na ÓTV

Recomendação de Livro - Excelente!

Comecei ontem a ler "Justiça", o último livro de Luiz Eduardo Soares. Como todos sabem - e se não sabem fiquem sabendo - trata-se do meu "guru". Penso, com absoluta certeza, que não é possível compreender o Brasil de hoje sem ler a obra deste antropólogo carioca, autor, entre outras menos conhecidas, de Elite da Tropa 1 e 2, que inspiraram os dois filmes quase homônimos. A partir da questão da violência, da criminalidade e da Segurança Pública, ele simplesmente explica toda a nossa realidade.
Li poucas páginas.
E já percebi que, novamente, trata-se de livro fundamental. Recomendo entusiasticamente.
Em liguagem coloquial, envolvente, fácil, o autor faz o que propõe desde o início, que é pensar alto sobre crime, violência, justiça e castigo. Mas não se enganem. O palavreado é leve. O conteúdo, porém, é um violento soco no estômago. Desferido com classe e elegância, mas nem por isso menos dolorido.
Inclusive porque a abordagem é feita de um ponto de vista totalmente original, diferente de tudo o que estamos acostumados a ver (sofrer lavagem cerebral?) na grande mídia de todo dia.
Ninguém é capaz de colocar tudo com tanta clareza, e mostrar de forma tão objetiva um diagnóstico da nossa realidade capaz de apontar caminhos para as soluções, que para muitos de nós parecem impossíveis.
Vale à pena.
Custa baratinho.
O lucro intelectual é desproporcional.
Procurem sua livraria predileta.
"Justiça"
Luiz Eduardo Soares
Editora Nova Fronteira.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Muitas Emoções - O desabafo.

          Bom, vamos lá.
          Duas semanas atrás um episódio de grande violência tirou a vida de três jovens, dois rapazes e uma moça.  Membros de comunidades vulneráveis, carentes de expectativas e esperanças, enredados nas franjas da marginalidade.
          Um deles, 25 anos de idade, filho único de uma das nossa heroínas Mulheres da Paz.
          Senhores, que dor imensa!
          Todo o nosso esforço é justamente enfrentar exatamente essa situação, que aterroriza todos os dias dezenas de mães, dizima famílias, destroça corações... e lá vem a realidade socar diretamente a ponta do nosso queixo.
          Na prática, a teoria é outra, diria o filósofo.
          Nunca nada foi tão difícil quanto o abraço que dei naquela mãe, naquele momento. Nada parecia suficiente diante do jorro de emoção. Ela na rua, dia após dia, propagando a cultura da paz, lutando para afastar dos lares o fantasma da violência, e então, os tiros diretamente na sua própria alma.
          Juro que aquele abraço foi o momento mais longo da minha vida. E juro também que as primeiras sensações que tive no momento, de impotência, de inutilidade do esforço, foram justamente as que me induziram a reforçar o ânimo de seguir em frente. Valerá à pena.
          E a vida seguiu.
         Sábado último assassinaram, com onze tiros, um jovem abrigado no "Protejo". Tinha 17 anos. Era pobre, era pardo e, sim, estava envolvido com o crime.
         Eu o conheci pessoalmente. Fotografei-o. Tinha um sorriso luminoso. Na ocasião, estava tendo aulas de montagem, desmontagem, formatação e programação de computadores. Já sabia fazer muito disso. Estava descobrindo um mundo novo, e mostrava cada vez mais, por atos e palavras, a pequena chama de esperança que se acendia em seu espírito. Era visível que se deslumbrava com a possibilidade que estava vislumbrando, e com a oportunidade que poderia vir a ter. Era novidade. Jamais lhe ocorrera que isso pudesse acontecer. Suspeito que sequer se julgasse digno disso, tal a lavagem cerebral da lógica da opressão.
          Quando perguntei ao grupo o que pretendiam fazer com o conhecimento que estavam adquirindo, um colega respondeu "Ganhar dinheiro, tio". E ele, sorriso aberto, fez que sim com a cabeça.
          Isto foi em início de dezembro. De lá para cá, carreguei a fotografia em meu celular como um troféu. Dar uma nova chance a essas pessoas é exatamente o conceito que tenho de prevenção em segurança pública. É o que me move. Um orgulho. Exibi para quem pude, me gabando.
          Onze tiros.
          Dizem que foi vingança. O suspeito de tê-lo matado é também jovem, pardo e homem. Dizem que meses atrás ele, agora vítima, teria matado outro menino. Pardo, pobre, etc. Um círculo infernal. Não sei. Só sei que, mais uma vez, neste caso, a chance se foi.
          E novamente, uma dor imensa. Sensação de impotência enorme.
          E, outra vez, força para persistir. Até porque isso nada mais é do que o bafo quente, úmido e malcheiroso da realidade soprando a nuca de quem sabia das coisas em teoria e agora está botando a mão na massa. E confirmando. Estatísticas são números. Frios. Mas se referem a gente. Pessoas. Quando você vai à luta, o buraco é mais embaixo. Os números ganham nomes.
          Mas que dói, gente, isso dói.
          Porque vidas são vidas.
          Foram dois jovens. Ambos inteiramente dentro das estatísticas que citei neste espaço ontem. Será, porém, que as vidas deles valem menos, só por isso?
          Nossa tendência pequeno-burguesa é a de valorizar a das pessoas mais bem aquinhoadas, quando são vítimas da violência dos "de baixo". Então, a comoção é geral. Dá-lhe mídia. Dá-lhe revolta. Dá-lhe opinião pública a clamar por endurecimento de penas, diminuição da maioridade penal, açoites em praça pública (dos "de baixo", claro, porque os "de cima" por muitas razões, ficam na flauta).
          Quando a vida perdida é daqueles, porém, parece que ela vale menos. Mas não é. O termômetro é a dor da mãe.
          "Ah, estavam envolvidos com o crime, bem-feito", diz o "cidadão de bem", do alto dos seus privilégios e da total ausência de conhecimento do que seja necessidades básicas. Trata-se de visão racista, preconceituosa, facista mesmo.
          Qual foi a alternativa que lhes demos? Qual foi a oportunidade - ou a igualdade de acesso a ela - que a sociedade "democrática" lhes ofereceu?
          Às vezes, quando se tenta, é tarde demais.
          Mas não é motivo para esmorecer.
          Há tantas outras trajetórias a resgatar,
          há tanta violência a evitar,
          tanta esperança a restaurar,
          tanta felicidade a conquistar,
          que vale à pena continuar.

          Por isso, vamos em frente.

          Um abraço.