sábado, 14 de abril de 2012

Preocupações exageradas?


            Li na imprensa do dia 13/04 duas declarações do Secretário Estadual de Segurança, Dr. Reynaldo de Almeida César.
            A primeira informa que, ao contrário do que havia sido anunciado anteriormente pelo próprio Governo, nenhuma das 10 (dez) UPSs – Unidades Paraná Seguro que serão inauguradas ainda em 2012 estará localizada no interior do Estado.
            Todas elas serão em Curitiba.
            A outra declaração, que busca explicar a anterior, diz que a forma como fazer a instalação dessas unidades fora da Capital ainda é objeto de estudos, uma vez que elas se constituem em “um projeto de cidadania, e seu sucesso depende de integração com o poder público municipal.”
            Preliminarmente, cabem duas observações.
         Uma. Toda a análise que farei a seguir partirá do princípio de que os textos acima transcritos realmente refletem as declarações do Secretário. Como disse, foram tirados de um jornal, e todos os leitores do meu blog já sabem o que penso a respeito. Nunca receba informações da grande imprensa com os dois pés à frente. Senso crítico e caldo de galinha são indispensáveis. A parte que aparece aqui entre aspas está assim também no jornal, de modo que penso ser uma citação textual. Se for, ótimo, porque é o melhor trecho da declaração. Então, se as informações acima realmente configuram o que o secretário Reynaldo disse, a minha análise se aplica. Se não, não.
            Duas. Para contextualizar. As UPSs, como todos devem lembrar, são a mais vistosa vitrine da política de segurança pública do Governo Beto Richa. A primeira delas foi inaugurada há um mês no Uberaba, em Curitiba. Quem quiser refrescar a memória sobre o que são e como funcionam, ver o post “Meu Ponto de Vista – 4 – Políticas de Segurança do Governo do Estado” – Parte II, de 07 de março de 2012, neste blog.
            Quanto às declarações do secretário propriamente ditas, confesso que me deixaram bastante preocupado.
            Antes de tudo, como gestor, exatamente na área da segurança, e na Região Metropolitana de Curitiba. Não estamos na Capital, e, portanto, estamos fora dos planos para 2012.
            Mas, como vizinhos, sofremos as conseqüências.
            A região do Uberaba onde se instalou a UPS era, até então, um dos locais mais violentos de Curitiba. Casualmente está localizada exatamente na divisa com São José dos Pinhais. Ocupada pela polícia, viu reduzidos significativamente seus índices de violência e criminalidade.
            No entanto, não foi efetuado grande número de prisões. Para onde teriam ido os criminosos?
            Pois é.
            Aqui, já estamos sentindo os efeitos.
            Com certeza, o restante da Região Metropolitana também. Se não agora, em breve, porque, conforme o mesmo jornal, as próximas UPSs serão no Tatuquara (divisa com Fazenda Rio Grande), CIC (divisa com Araucária), Cajuru (divisa com Pinhais) e Sítio Cercado.
            (Parêntesis. Por coincidência, tive que interromper a escrita desta postagem nesta parte para ver televisão, porque exatamente no mesmo momento a Rede BandNews exibiu uma matéria mostrando o aumento exponencial da criminalidade em São Gonçalo e Niterói, no Rio de Janeiro, em função da migração dos criminosos, tocados  da Capital daquele Estado pelas UPPs – Unidades de Polícia Pacificadora, dispositivo inspirador das nossas UPSs. Fecha parêntesis).
            Depois, como cidadão. É porque, com todo o respeito, embora o conceito seja absolutamente correto, a explicação absolutamente não convence.
            Esclareço: conforme já disse um pouco acima, a citação entre aspas é precisa e bastante avançada. Não se pode pensar nada, hoje, em segurança pública, sem integração das esferas de governo.
            Este o conceito. Absolutamente correto.
            Porém, o uso dele como motivo para a postergação da extensão da política governamental ao restante do Estado é um atentado à lógica mais elementar.
            Vamos precisar da ajuda da filosofia, da qual a lógica é um campo de estudo. Mas não se preocupem. É coisa de bê-a-bá. Na verdade, estamos lidando com um raciocínio absolutamente simples.
Ele tem três fases: um pressuposto, um desdobramento e uma conclusão. Se os primeiros forem verdadeiros, a conclusão também o será, e o raciocínio recebe o nome de silogismo.
            Mas se um deles, mesmo parecendo verdadeiro, é falso, isso leva também a uma conclusão falsa. Assim, sob uma aparência totalmente verdadeira, afirmamos uma mentira. Neste caso, temos um sofisma.
            Vejamos, então, a explicação dada: 1) a instalação da UPS exige integração do Poder Público Estadual com o Poder Público Municipal (pressuposto); 2) neste momento só é possível instalar UPSs em Curitiba (desdobramento); 3) logo, ao menos neste momento, só existe integração do Poder Público Estadual com o do Município de Curitiba, e, portanto com nenhum dos outros 398 que compõe o Estado do Paraná (conclusão).
            A mim, sinceramente não convence.
            Parece-me um sofisma.
Será possível não haver integração suficiente do Estado com nenhum outro Município, além da Capital?
            Falo por São José dos Pinhais, de cujo Poder Público Municipal faço parte em nível de primeiro escalão, e exatamente na área da segurança, que é onde a integração exigida deve ocorrer.
            De nossa parte, nada, absolutamente, a impede. Antes pelo contrário. O relacionamento com a área estadual é o melhor possível, tanto no nível pessoal, quanto profissional, e, mesmo, conceitual. Além de conhecimento e respeito mútuos, possuímos absoluta identidade de pensamentos e concepção com toda a alta cúpula estadual, aí incluído o próprio Secretário e sua assessoria direta, bem como o Comando da Polícia Militar e a Chefia da Polícia Civil.
            Deles já ouvi, inclusive, que São José estará na linha de frente dos municípios que receberão UPSs.
            Qual, então, a razão verdadeira do adiamento?
            Por isso é que vejo a explicação como preocupante.
Essa preocupação, aliás, é séria a ponto de ter vergonha de dizer seu nome.
É que neste ano haverá eleição municipal. Serão escolhidos os prefeitos de todos os municípios do País.
Segundo a unanimidade dos analistas políticos, o Governador Beto Richa tem como estratégia prioritária, visando sua reeleição em 2014, contar, quando ela chegar, com um aliado na Prefeitura de Curitiba, Capital e principal colégio eleitoral do Estado.
Desta forma, e ainda pelo que se lê, ele deverá apostar todas as suas fichas na reeleição de Luciano Ducci, seu fiel escudeiro de outras batalhas, a quem inclusive expressamente já declarou apoio.
Importante: nada a opor, até aqui.
Cidadão como outro qualquer, tem o Governador pleno direito à sua opinião e ao seu voto. E se esta opinião pesa mais do que a da grande maioria no Estado, em virtude do cargo que ocupa, isto é parte do jogo democrático. Afinal, ele o ocupa pela livre vontade popular.
Pode – e, mais, até deve – utilizá-la, na campanha, como bem lhe aprouver, em apoio ao candidato de sua predileção.
O que não pode é, como gestor, submeter qualquer decisão administrativa ao critério dessa opinião.
Tais decisões, por determinação constitucional, devem ser pautadas obrigatoriamente pela impessoalidade.
O que nos traz de volta à mudança de rumo das UPSs.
Ocorreu a seguinte sucessão de fatos:
Em início de março, quando da instalação da primeira Unidade, em Curitiba, as autoridades declararam em uníssono que haveria mais dez até o final do ano, algumas delas no interior.
No início de abril foi divulgada uma pesquisa do Ibope acerca da preferência do eleitor curitibano, na qual o Prefeito Ducci aparece em 3º lugar, nada menos do que 10 (dez) pontos percentuais atrás do primeiro colocado.
Menos de uma semana depois, a imprensa noticia que todas as dez UPSs de 2012 serão em Curitiba.
No interior, só a partir de 2013 (quando, observe-se, a eleição já terá passado).
Decisão, por certo, de Governo, e não de apenas um secretário.
           Pode ter sido mera coincidência. Mas também pode ser que não.
De qualquer sorte, uma abrupta e repentina mudança. E grande. De 180 graus.
Tudo bem, se para ela houvesse uma explicação convincente.
Mas a verdade é que não houve.
A que surgiu soa extremamente falha.
Tomara, então, que a preocupação de nome proibido seja apenas um exagero imaginativo. Ou que o jornal tenha acrescentado a sua costumeira pitada de sal às declarações que coletou.
Do contrário estaremos, outra vez, diante de lamentável sobreposição de interesses privados ao interesse público, inversão ilegal e injustificável, e que tanto mal tem causado ao nosso País ao longo dos anos.
Seria uma pena.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Destruir é fácil. Já reconstruir...


Dia desses eu escrevi neste blog que o regime militar atrasou o amadurecimento político da população brasileira em pelo menos um século.
Fez isso pura e simplesmente alijando a população do processo político. Proibiu-a, sob pena de severas punições, de participar, de debater, de influir. Sequer votar, podia, para cargos com poder decisório. Em uma palavra, alienou-a.
Criou nela uma cultura na qual essa é a melhor atitude.
As conseqüências são as piores possíveis. O afastamento e a indiferença das pessoas geram a deterioração do ambiente político, e esta, por sua vez, as afasta ainda mais.
Hoje, com a democracia restaurada, reverter isso é uma tarefa hercúlea. Trata-se, não menos, de reconquistar corações e mentes!
E estamos apenas no início.
Pois bem. A ditadura fez ainda mais. Atrasou também, e por décadas, o próprio desenvolvimento do país, no que diz respeito à justiça social, à participação da grande maioria de sua população nos benefícios gerados pela imensa riqueza com a qual ele foi dotado.
Estou lendo, neste momento, a biografia de João Goulart, o Presidente da República que foi deposto pelos generais, auxiliados por uma elite civil retrógrada, quando do golpe que instaurou a ditadura.
Escrita pelo historiador Jorge Ferreira e publicada pela Editora Civilização Brasileira, é uma obra magnífica que busca – e consegue, brilhantemente – romper uma espécie de casulo virtual, no qual o imaginário brasileiro aprisionou o personagem, reduzindo toda sua rica trajetória ao último e triste episódio.
Fico sabendo que no dia 6 de março de 1964, 26 dias antes de sua deposição, Jango fez um discurso no qual, entre outras coisas, disse o seguinte: “A paz que nós desejamos não é apenas a que aparece nas ruas asfaltadas, mas a que leve a justiça social aos nossos caboclos do interior, que entre no lar humilde dos trabalhadores, e incorpore todo o povo à sociedade que todos nós desejamos, à sociedade cristã de um país livre e independente. (...) O que nós desejamos com essas reformas é integrar na sociedade brasileira mais de quarenta milhões de irmãos nossos, também, brasileiros, que precisam participar da vida de seu país e da riqueza nacional.”[1]
Soa familiar?
Pois é.
Isto é exatamente o que estamos todos empenhados em fazer hoje.
As maiores vitórias que o Brasil tem alcançado nos últimos anos são exatamente fazer com que um número significativo de brasileiros saiam da miséria absoluta. Ou seja, que se incorporem à sociedade, que participem da riqueza nacional.
Somos hoje respeitados, inclusive internacionalmente, em razão de estarmos conseguindo diminuir de forma visível a desigualdade social.
 De lambuja, ganhamos solidez em nossa economia, porque estamos conseguindo inserir nela grandes quantidades de pessoas.
E conseguimos atravessar razoavelmente ilesos graves crises mundiais.
No longo prazo, isso tudo vai se refletir positivamente em inúmeros setores da vida nacional. Inclusive, e principalmente, na segurança pública, tema ao qual tenho me dedicado com um pouco mais de afinco nos últimos anos.
Já pensou onde estaríamos hoje, nesse processo, se o tivéssemos iniciado quarenta anos antes, como queria Goulart?
Infelizmente, não foi possível.
A quebra do regime democrático calou a voz do povo, revigorou e manteve, com mão de ferro, as relações econômicas e sociais vigentes até então, aprofundando e alargando, de maneira inédita, o abismo de injustiça que separa os privilegiados dos oprimidos, em nosso País.
              O preço estamos todos pagando agora.


[1] O trecho está na página 411, e os grifos são meus.

sábado, 31 de março de 2012

Matéria Interessante

            No portal UOL, sobre Guardas Municipais. Vale uma olhada no link:

                 GMs - Armar e Regulamentar?

sexta-feira, 30 de março de 2012

Boa notícia.


Segundo o Jornal Nacional de hoje, 30/03, a percepção do brasileiro sobre segurança pública está passando por uma transformação.
É que a Federação do Comércio do Rio de Janeiro (ou de São Paulo, não lembro direito) fez uma pesquisa, e apurou que mais de 70% da população já sabe que somente polícia não basta para garantir uma boa segurança. Entende que se faz necessária também a presença complementar do Estado no fomento de medidas de inclusão social.
Há cinco anos esse número não chegava a 60%
Trata-se de notícia das mais estimulantes.
Em primeiro lugar, porque se volta para a direção certa. Muitos dos estudiosos e gestores da área (entre os quais modestamente me incluo) já vem apontando esse caminho há algum tempo, como a única saída.
E em segundo porque confirma, agora de forma científica, algo que eu, pelo menos, já sabía. E, inclusive, anunciava. Trata-se de verdade tão evidente que se impõe perante as pessoas de forma quase natural.
              Boas coisas também acontecem. Isso nos incentiva a prosseguir na luta. Ainda é longa a jornada à frente. Mas há cada vez mais caminho percorrido, na retaguarda.

Fala sério, meu!


Essa é pra dar muita risada. Muita mesmo.
Ouvi ontem, dia 29 de março, na Rádio BandNews FM.
Quase morri de rir.
Vocês sabem o que é o Clube Militar?
É uma entidade, que fica no Rio de Janeiro, onde atualmente se reúnem as viúvas da ditadura.
É lá que vão os generais ainda vivos, hoje felizmente de pijama, que participaram, de uma forma ou de outra, do golpe que em 1964 rasgou a Constituição Brasileira e instaurou um regime militar que por mais de 20 anos governou o País com mão de ferro, perseguindo, torturando e matando toda e qualquer pessoa que a ele se opusesse, mesmo que apenas com ideias e de forma absolutamente pacífica.
Regime este que, no processo, atrasou o amadurecimento político da população brasileira em pelo menos um século (por baixo).
Vão lá, tomam seu chazinho, relembram os bons tempos quando mandavam e desmandavam, provavelmente choram de saudades.
Bom.
Ontem, estiveram lá mais uma vez. Foram “comemorar” o aniversário do golpe, que, como se sabe (ou se deveria saber – não esquecer é sempre um meio de evitar que se repita) aconteceu no dia 1º de abril daquele fatídico ano.
Enquanto celebravam seu “feito”, suas vítimas resolveram protestar.
Várias pessoas que de algum modo foram prejudicadas pela ditadura (torturados, parentes de mortos e desaparecidos, etc.), organizaram uma manifestação exatamente no mesmo horário, na frente do Clube.
Ali, aos brados, extravasaram a sua versão do evento que do lado de dentro as viúvas celebravam.
Quando a reunião destas últimas terminou, e elas deixaram o edifício, houve tumulto, que precisou ser contido pela polícia.
Foi então que ocorreu o episódio que provocou a minha crise de riso.
Perguntaram a uma das viúvas, o General Clóvis Bandeira, o que achava da manifestação das pessoas em frente ao Clube.
Parêntesis.
Quem é o Gal. Clóvis Bandeira?
Não sei muito, mas eis o pouco que sei: é vice-presidente do Clube Militar, e ardoroso defensor da ditadura militar de 1964. Acha que a Comissão da Verdade criada pelo Governo para esclarecer a História do Brasil durante aqueles anos em que essa história foi manipulada, corrompida, distorcida e escondida do povo e do mundo pelo próprio Gal. Bandeira e seus colegas é “revanchista”; ou seja, não vê nenhuma razão pela qual o povo brasileiro deva ter acesso aos fatos que constituem sua própria história, que para todos os demais mortais é um dos elementos constitutivos essenciais da identidade nacional.
Fecha parêntesis.
O Gal. Bandeira, que participou ativamente, e morre de saudades, do regime que censurava a imprensa, prendia, torturava e matava quem quer que dele discordasse, etc., etc., etc., saiu-se com uma resposta que dizia mais ou menos o seguinte (não lembro exatamente as palavras utilizadas pela radialista):
- “Este protesto atenta contra a liberdade de expressão. Ele objetiva coibir o direito de manifestação de pessoas QUE SIMPLESMENTE PENSAM DIFERENTE DE SEUS PROMOTORES.”
Que tal?
               Não é o máximo?
Eu, que estava vindo para casa dirigindo meu carro, precisei estacionar. O ataque de riso foi tamanho que se permanecesse trafegando teria colocado a minha vida e a de outros em sério risco.

terça-feira, 27 de março de 2012

Meu Ponto de Vista - 5 - Dilma e o Congresso (Final)


Cada dia mais, o que parece é que D. Dilma vai optar por um dos dois últimos caminhos.
Pense comigo (mas em voz baixa, ok?).
Se fosse para simplesmente ceder à chantagem, ela já não o teria feito?
Vai esperar até quando?
Afinal, a pressão do Congresso já dura bem uns 20 dias ou mais. E tem sido bem dura. Os recados fisiológicos estão sendo dados todos os dias.
O PR (Partido da República, o daquele senador, lembram?) já se diz na oposição, porque não ganhou o Ministério que queria.
Outros tantos arrotam grosso.
E não são só ameaças. Já existem várias represálias concretas.
O nome indicado pela presidente para a agência reguladora dos transportes foi rejeitado pelo Senado; o Governo (e o País, claro!) precisa da aprovação rápida da Lei Geral da Copa, a fim de cumprir os compromissos para organizar o evento, mas não consegue, em virtude de sucessivos adiamentos por motivos fúteis; há uma ameaça velada de aprovar o Código Florestal em versão danosa para toda a população brasileira (e mesmo para o mundo...), só porque é o contrário daquela desejada pelo Governo; as comissões das duas casas estão repetidamente derrotando temas do interesse dele.
A Presidente?
Quieta.
Na minha opinião, ela está é trucando.
Pagando pra ver até onde os caras agüentam.
Lembra da brincadeira do pisca? Ora, você também foi criança, um dia. Sei que vai lembrar. Os dois adversários se desafiam olhando-se nos olhos, e perde quem piscar antes. Lembra agora?
Pois é. Eu acho que é esse o jogo que está sendo jogado.
E a Dilma aposta que o Congresso vai piscar primeiro.
Quer saber o que eu penso (como se tivesse grande importância...)?
Penso que ela está certa.
A imensa maioria dessa gente não tem a menor ideia de como é fazer política expostos a chuvas e trovoadas. Quer dizer, suas carreiras não sobreviveriam quase nada longe das “tetas” do poder, sem a sombra acolhedora e sobretudo protetora do governo.
O fisiológico vive disso mesmo, do fisiologismo. É a única linguagem que pratica em todos os níveis, inclusive no relacionamento com seu eleitorado. Só sabe conservá-lo exibindo sua “influência” e o “bem” que ela supostamente traz ao dia-a-dia das pessoas. Se perdê-la, o que resta?
Então, vamos ficar atentos.
D. Dilma pode estar inaugurando uma nova era na política brasileira, no que diz respeito ao relacionamento do Executivo com o Legislativo.
Não estou afirmando que está, estou apenas conjecturando (esperando? sonhando?) que pode estar.
Talvez ela esteja endurecendo pra valer, sem negociação alguma. Nesse caso, se vencer, obterá a rendição incondicional. Não creio na hipótese. Suas chances de sucesso são muito menores, não só porque é uma empreitada incomparavelmente mais difícil, mas, mais que tudo, porque adversários encurralados, confrontados com a necessidade desse tipo de capitulação, costumam reagir de forma irracional e com grande ferocidade.
Não. Nem a prudência e nem a sabedoria política aconselham essa estratégia.
De forma que, firmes na análise do André Gonçalves, só nos resta o caminho da depuração da base aliada.
Se me fosse dado o dom de adivinhar, apostaria minhas fichas na hipótese de que, neste exato momento, Dilma e sua república de mulheres estão dedicadas em tempo integral a costurar, na discrição dos bastidores, uma estrutura de apoio no Congresso Nacional que, embora mais enxuta, seja um pouco menos fisiológica e mais ideológica. Portanto, mais confiável e menos chantagista.
Nunca fui um grande analista político. Portanto, se eu fosse você, não colocaria dinheiro no meu palpite. Mas que o raciocínio é bem fundamentado, lá isso você tem que reconhecer que é.
E que o palpite, portanto, faz sentido, lá isso faz.
              Quem viver, verá

domingo, 25 de março de 2012

Meu Ponto de Vista - 5 - Dilma e o Congresso (Parte I)


É notável como vez por outra ocorre um episódio que sacode aquele antigo preconceito que diz que existe pouca vida inteligente no jornalismo paranaense.
Um desses aconteceu na sexta-feira, 23/03. Matéria da Gazeta do Povo, assinada por André Gonçalves, me fez pensar.
E cheguei à conclusão de que talvez esteja acontecendo algo totalmente novo em nosso País, e que pode ser muito bom.
Trata-se dos desdobramentos da crise que está ocorrendo entre o Executivo Federal e o Congresso Nacional.
A minha sensação – e acho que de todos os que prestam atenção – quanto à crise, propriamente dita, é a de uma reprise da reprise. Já vimos esse filme inúmeras vezes.
Seguinte:
A Constituição vigente, de 1988, é essencialmente parlamentarista. Mas o regime que ela consagrou é presidencialista.
O Parlamento (Legislativo) está cheio de poderes, e sem maioria dentro dele o(a) Presidente (Executivo) não consegue governar.
No entanto, a tradição brasileira, bem como a enorme representatividade adquirida por este(a) último(a) através da imensa quantidade de votos que o(a) elege, conferem-lhe imenso poder.
Temos, então, uma contradição difícil de superar. Um presidencialismo forte, mas um parlamento que, bem articulado, pode paralisá-lo.
Ora, nossa jovem democracia ainda carece de muita maturidade.
Tanto a população, na hora de escolher seus representantes, quanto estes, no exercício dessa representação, orientam-se muito mais por questões individuais e imediatas do que propriamente pelos grandes e coletivos interesses da Nação.
O resultado é esse fisiologismo deslavado e desenfreado que grassa na política pátria. O famoso “toma-lá-dá-cá”. A filosofia foi certa vez sintetizada por um dos seus mais cínicos praticantes: “é dando que se recebe”.
Uma vergonha.
O executivo traça as políticas para as quais foi eleito. Colocá-las em prática exige medidas legais. E estas carecem de aprovação no Congresso. É daí que vem a chantagem.
Os parlamentares, para votar a favor do Governo, exigem benesses em troca.
Refém dessa lógica, ele é obrigado a ceder, sob pena de não conseguir executar seus projetos. Vamos combinar que nenhum governante deseja entrar assim para a História, né?
E concede as benesses. Vende sua alma ao diabo em troca da famosa “governabilidade”.
Temos visto isso desde a redemocratização.
sarney (com minúscula mesmo) fez isso; collor (idem) também; Itamar e Fernando Henrique, de cuja honorabilidade pessoal nenhuma pessoa séria até hoje duvidou, não escaparam; Lula, então, não só praticou o jogo, como o elevou a um patamar de sofisticação jamais imaginado antes.
Claro que, em contrapartida, houve ganhos. A “governabilidade”, conquistada com a venda da sua alma, permitiu aos governantes levar à frente políticas (sobretudo nos últimos anos) que sem qualquer dúvida conduziram o País a um grande salto de qualidade, em vários sentidos.
O preço, entretanto, foi enorme. E está visível nos jornais, todos os dias, em forma de corrupção, falta de vergonha-na-cara, escândalos, cinismo deslavado e descarado, a boa e velha chantagem.
Dia desses teve um senador que disse à imprensa, quase com todas as letras, coisa assim: “Meu partido cansou de pedir à Presidente um Ministério. Como ela não deu, vamos pra oposição.”
Não se preocupou nem em disfarçar. Não ficou nem vermelho.
Alguém poderia perguntar (e não de forma irônica, vejam bem): e por que deveria?
A coisa é tão institucionalizada que talvez muita gente nem atine com o absurdo. Tem sido assim por tanto tempo, e de forma tão natural, que as pessoas mais desavisadas podem pensar que é assim mesmo, que a política se faz desse jeito, que esse é o papel dos partidos.
Não, meus netinhos. Nada disso.
Política se faz (ou se deveria fazer...) para o bem do País, para melhorar a vida de todos. Um partido político tem um programa, que é o conjunto de ideias que os seus integrantes defendem (ou deveriam defender...), porque acham que elas são as melhores para o País e para seus habitantes.
Por isso, um partido deveria estar na oposição quando as ideias que o governo aplica são diferentes daquelas que ele defende. E deveria estar ao lado do governo sempre que as ideias se assemelharem. Entenderam?
Um partido não deve (ou não deveria...), jamais, estar deste ou daquele lado do muro por interesse pessoal de seus integrantes, porque ganhou ou deixou de ganhar um carguinho.
O tal senador sabe disso. Ele não aplica, mas sabe. Por isso é que deveria pelo menos disfarçar. Ou ficar vermelho por não fazê-lo.
Mas a coisa está tão escrachada que eles nem acham que precisa.
            Quando o regime é de fato parlamentarista, o Legislativo tem o mesmo poder que o nosso. Só que daí o governo é formado por um Gabinete que tem o apoio da maioria dos parlamentares. Essa maioria é construída com programas, políticas e ideias. Enquanto a maioria está de acordo com eles e a forma como o Gabinete os implementa, ela está comprometida com isso, e garante a governabilidade no voto.
            No momento em que as concepções da maioria e do Gabinete entram em rota de colisão e este perde o apoio daquela, ele simplesmente cai. O Governo sai, e se forma outro, em cima de outra maioria.
            Aqui, não. A contradição que apontei no começo dessa conversa faz com que a perda da maioria não acarrete a queda do governo, mas o estilhaçamento da "governabilidade". Combinada com a imaturidade da nossa democracia, na qual todos nós só pensamos em nós mesmos, ela cria um campo fértil para o cultivo da chantagem descarada, como aquela que vimos praticada pelo senador acima citado.
Pois bem.
Estamos diante de tudo de novo. A reprise da crise (ou a crise da reprise?).
O governo meio que fazendo birra, o Congresso batendo o pé, se não me der isso, se não fizer aquilo, vou votar contra, vou mostrar quem manda, e tal-e-coisa.
E, de fato, emparedando a Presidente com seguidas derrotas, nos últimos dias.
Daí aparece o André Gonçalves, da Gazeta, e nos diz que a Dilma tem três caminhos para reagir. Ou cede à chantagem, como sempre se fez, ou endurece o jogo, não negocia com ninguém e paga pra ver, ou repactua seu relacionamento com a base aliada, abrindo mão dos partidos abertamente fisiológicos, e ficando apenas com aqueles que se norteiam por um mínimo de ideologia política e partidária (ou seja, que pelo menos às vezes votam segundo suas convicções, e não – ou nem sempre... – por interesses pessoais).
Alguém já tinha visto a questão por esse ângulo antes?
Eu, pelo menos, acho que não.
E penso que é uma análise extremamente inteligente e lúcida. Ela me leva a algumas reflexões bem interessantes.
As quais vou compartilhar com vocês na sequência.

(continua...)

quinta-feira, 22 de março de 2012

Retrocesso

          Má notícia.
          O Juiz Federal, lá do Pará, não acatou a denúncia do Ministério Público contra o Sebastião Curió. Não encampou a tese de sequestro que ainda permanece.
          O Brasil continua sendo o único país do mundo proibido de rever sua história.
          Quem estava tenso já pode voltar a dormir tranquilo.
          Uma pena.

terça-feira, 20 de março de 2012

BBB

            E o brother, hein?
            Aquele, acusado de estupro, lembram? Fiz um comentário aqui no blog, na época.
           Pois é. Foi inocentado. A justiça mandou arquivar. A sister disse que a relação foi consensual, que ela estava consciente, e tal e coisa, e que então tudo bem.
          O Brasil pode respirar aliviado. Sexo no ar pode. Desde que ambos topem.
           Que siga o baile.
           Mas o pior, gente, não é isso. O pior, pior mesmo, mesmo mesmo, é o comportamento da Rede Globo.
            Para quem se lembra, na ocasião do "evento", a primeira reação da emissora foi inocentar o rapaz. No dia seguinte, entretanto, diante da presença da própria polícia no "set", afastou-o sumariamente do "show", alegando que cometera "grave desvio de conduta". Foi o Pedro Bial, antigo ser pensante que hoje se presta ao papel de boneco do ventríloquo, quem disse isso, no ar. A imprensa toda reproduziu, no dia seguinte.
            Diante da possibilidade de escândalo, a Venus Platinada só quis saber de tirar o dela da reta. Colocou o cara pra escanteio e saiu de cena. "Não tenho nada com isso".
            O punido protestou, a família dele disse que ia processar a Globo, deu o maior bafafá (lembram de "bafafá"? É do tempo de minha mãe. Hoje se diz "furdunço", mas eu acho essa palavra muito ruim).
            Nada.
            A Venus, olímpica. Quieta. Nem "tchum" ("tchum" pode).
            Agora, vem a justiça e diz que o rapaz não fez nada de errado.
            Então, no Jornal Nacional de hoje, dia 20 de março, o locutor William Bonner me sai com essa: Diz, com todas as letras, e sem nem ficar vermelho, que o acusado foi afastado do programa BBB para poder melhor se defender perante a justiça!
            Alguém pode me dizer se conhece atitude mais vergonhosa, mais hipócrita, mais cafajeste, mais mau-caráter?
            Pode ter passado despercebido pra alguns, mas não pra todos, viu, aí, ô Globo?
            Tem gente prestando atenção, e se dando conta da sacanagem e da enganação.
             Só pra constar.


Trânsito um pouquinho mais civilizado

            Anos atrás estive em uma cidade do interior de Santa Catarina (não me lembro mais qual) e fiquei impressionado de como todos os carros paravam na faixa de pedestres quando alguém queria atravessar, e ninguém achava ruim. Achei aquilo um tremendo sinal de civilização.
            Depois já vi tal coisa em vários outros cantos do Brasil e do mundo. Lembro, assim de cabeça, de Gramado e Canela, RS, Santiago do Chile, Brasília. No último final de semana estive em Registro, SP., e a mesma coisa.
            Quando me deparei com este fenômeno pela terceira ou quarta vez, fiquei com vergonha da nossa Curitiba. Aqui era um salve-se-quem-puder.
            Então pensei em, quando estou dirigindo um veículo, começar a adotar o hábito. No início, não consegui. Simplesmente não lembrava! Quando o fazia, era tarde demais, e o pedestre já tinha ficado pra trás. Achei várias desculpas. A principal, me lembro bem, foi dizer a mim mesmo que em Curitiba quase não havia faixa de pedestres. Eram todas nos semáforos, e ali não vale, porque ele é que determina quem tem preferência de passagem.
            Balela, claro. Conversa pra boi dormir, e eu enganar a mim mesmo.
            Mas com o tempo, a coisa foi começando a acontecer naturalmente. Hoje, tenho orgulho de dizer que já consigo parar para o pedestre atravessar em cerca de 80% dos casos. E estou melhorando. Vou chegar a 100%, podem apostar. As pessoas é que parecem nem acreditar. Hesitam antes de atravessar (quem pode prever o que vai fazer o maluco que vem na pista ao lado, não é mesmo?), ficam meio bobas. E, sem exceção, agradecem. O que é desnecessário, porque afinal só estão recebendo o que é um direito delas.
            O que quero dizer, entretanto, é outra coisa. É que temos esperança. Em primeiro lugar, não tenho mais recebido buzinadas quando detenho o meu carro para aguardar um pedestre. Esta é uma boa notícia. Em segundo, tenho visto, aqui e ali, outros motoristas adotarem a mesma postura. Sabe como é, uma coisa leva à outra. Um cidadão bem-intencionado vê outro tomando uma atitude correta, que produz boa-vontade no trânsito, e resolve adotá-la. Outro o vê fazendo isso e o imita; e assim por diante. Talvez se crie uma corrente que faça da coisa um hábito generalizado.
            Minha nossa! Será que fui eu que comecei tudo isso?
         
                                        (bom, sonhar não custa nada, não é mesmo?)