sábado, 11 de fevereiro de 2012

Sobre a "guerra" no Largo da Ordem no dia 05/02/2012


I – Carnaval da pequena-burguesia

Está no Rio de Janeiro o carnaval mais emblemático do Brasil. Lá ele nasce no morro, festa da periferia, alegria do povo. Só depois que desce para o asfalto é que agrega setores, digamos, mais aquinhoados.
Em outros lugares onde a folia faz sucesso o fenômeno se repete.
Aqui, na nossa Curitiba, nunca deu certo. Muita conversa de boteco já foi jogada fora, muito tutano já foi gasto, e até hoje ninguém conseguiu dar uma boa explicação.
E a verdade, verdade mesmo, é que fora da pequena-burguesia, ninguém nunca pareceu se importar muito com isso.
Deixem-me fazer um parêntesis meio introdutório, porque senão vou acabar sendo linchado sem merecer. O significado do termo pequena-burguesia, para efeitos dessa pequena e humilde análise, é cultural. Trata-se de um conjunto de atitudes e posições. Com ela não estou em absoluto querendo carimbar ninguém. Não estou fazendo referência a esta ou aquela pessoa em particular, muito embora sejam pessoas, evidentemente, que tomam as atitudes e posições pequeno-burguesas. Tomá-las não as faz pequeno-burguesas, mas somente a algumas de suas atitudes.  Ok? Vamos lá.
Dizia eu que o fato de o carnaval não ser muito bem sucedido em nossa capital nunca foi bem engolido pela pequena-burguesia. Digo “muito” bem-sucedido porque “um pouco” bem sucedido ele sempre foi. Um desfile de rua de escolas de samba, embora pobre, sem grande público ou prestígio, teima em fazer parte do calendário oficial da cidade.
Tanto lutou essa pequena-burguesia que conseguiu, finalmente, emplacar um “pré-carnaval”.
E nasceu este sucesso que é o bloco Garibaldis e Sacis.
Com o passar dos anos essa diversão da classe média foliona de Curitiba passou a atrair pessoas, digamos, menos aquinhoadas.
Notem a inversão. A única forma de carnaval que faz sucesso na “capital ecológica” nasceu na classe média e estendeu-se daí para a periferia.
Curioso, não?
Nem por isso, diga-se, menos meritório.
Ocorre porém, minha gente, que a pequena-burguesia fede. E muito.
Adiante falarei um pouco mais sobre isso.


II – A PM é a nossa Geni

É. Não adianta. Quem fez a fama deita na cama. É assim que se diz? Bom, vocês entenderam...
Tanto aprontou a Polícia Militar, Brasil afora, e por tanto tempo, que não tem mais jeito. Qualquer confusão que haja... é pau nela. Joga pedra na PM! Joga bosta na PM ! Ela é feita pra apanhar. Ela é boa de cuspir. A PM é a verdadeira Geni do Chico Buarque.
Não que não mereça. Também falarei um pouco mais sobre isso mais  adiante.
Por enquanto, deixem-me dizer a vocês uma coisa, com conhecimento de causa: na minha modesta opinião, a Polícia Militar do Paraná não poderia ter um comando melhor, sob qualquer ponto de vista, do que aquele que tem hoje. A dupla Bondarhuk-Cézar (comandante e sub) está, com léguas de lambuja, entre os melhores oficiais PMs que eu conheci nestes poucos anos de convivência na área.
Infelizmente (e eu próprio sou testemunha viva disso) não é do dia para a noite que, só por comandar uma corporação, você revira de ponta-cabeça a cultura inteira dela, nesse caso consolidada durante um século e meio.
Alguns poderão dizer que a declaração do comandante, saindo imediatamente em defesa da tropa, foi precipitada. Afinal, nem tinha investigado ainda. Típico. Corporativista. Nada mudou.
Recomendo cautela.
No meio militar existem razões que a razão civil desconhece. É preciso considerar recuos táticos, avanços estratégicos, e principalmente, condições de sustentação de posições.
Conheço bastante bem, e pessoalmente, os dois seres humanos dos quais estou falando. Tenho plena convicção de que o comando da PM não apóia nenhuma arbitrariedade.
O que não quer dizer que elas não tenham sido cometidas.
Até porque esse cacoete é dificílimo de vencer, não apenas na nossa PM, mas também em todas as outras.
Quem não se lembra da desocupação do Pinheirinho, no interior de São Paulo, apenas alguns dias atrás, em uma reintegração de posse? Quem não viu a imagem, que correu o mundo pelo YouTube, de uma pessoa com os dois braços erguidos em sinal de rendição, ser brutal e repetidamente agredida a golpes de cassetete, por um policial militar?
Pois é.
Anos e anos de serviço a regimes autoritários não passam em branco.
Então, a lição é clara: não provoquemos a PM! Ela simplesmente não consegue escalonar a força racionalmente, como manda a doutrina. Seu preparo ainda não chegou à fase de reagir com a devida moderação, sem levar as provocações que recebe para o lado emocional e pessoal.
E saibamos: mesmo quando esse dia chegar, mesmo quando agir corretamente em um episódio de controle de multidão – e tenhamos fé, isso ainda haverá de ocorrer! – a PM vai continuar levando pau, ainda por muito tempo.
Não tem jeito. Fez a fama, deitou na cama.


III – Todo mundo errou

É, o Secretário de Segurança saiu correndo em defesa da PM, e o comandante dela também. Nenhum dos dois tinha conhecimento suficiente do que ocorreu, pra fazer isso tão rápido.
Verdade.
Mas vocês repararam que ainda antes de eles fazerem isso o mundo inteiro já tinha descido o porrete nela? O porrete é geral e automático, vem instantâneo e de todo lado.
Será que esse mesmo mundo inteiro tinha mais conhecimento do que eles sobre o que tinha acontecido, e mais cedo ainda? Nada, é a mais pura “síndrome da Geni”!
Os jornais, então, são uma piada. Não dá para acreditar. Se você ler com atenção o mesmo deles, qualquer um, dia após dia, vai ter que rir. Tem um que se indignou desde o primeiro momento, falou tudo o que pode da PM, mostrou fotos de um policial agredindo covardemente um cidadão caído, e esbravejou que tudo aquilo era gratuito. Na sexta, dia 10, esse mesmo jornal exibiu na internet, sem nem ficar vermelho, um vídeo de arruaceiros montando uma barricada com barraquinhas da feira do Largo e atirando garrafas nos policiais.
À medida que os fatos vão aparecendo, revela-se que efetivamente, a PM foi provocada. Não agiu gratuitamente.
E reagiu.
Bom, já vimos acima o que acontece quando a PM reage. É confusão na certa.
O resultado é história. Todos conhecem.
Errou parte da multidão, ao provocar a PM. E, claro, errou a PM ao reagir emocionalmente, com evidente desproporcionalidade, totalmente descontrolada.


IV – Sem essa

Sem essa, portanto, de demonizar quem quer que seja.
“Ah, a culpa foi tua!”
“Não, foi tua”.
Foi de todos. De todos.
Sem essa, portanto, de virem os Garibaldis com mensagenzinhas de paz e amor, camisas brancas, posando de anjinhos diante de brucutus, como se não tivessem nada com isso.
Não são. E têm.
Até porque a multidão, incluindo os arruaceiros, bêbados ou não, drogados ou não, que guerrearam a PM, estava ali exclusivamente por causa do bloco. Ele, portanto, tem sua responsabilidade.
Os clubes de futebol não pagam pela bandalheira de suas torcidas? Os bares não são apenados pela algazarra de seus freqüentadores no entorno? Então porque é que os Garibaldis seriam diferentes?
Seria muito mais decente se assumissem a responsabilidade que lhes cabe, ao invés desse comportamento afetado, beautiful people, “paz e amor” de fancaria, de olhar para o outro lado, botar a culpa de tudo nos outros e fingir que só lhes cabe festejar.
É por isso que eu não canso de dizer que a pequena- burguesia fede.
Tálôco!
Os Garibaldis e Sacis também têm culpa no cartório, sim senhor. E, mais, têm responsabilidades também em um montão de outras coisas que acontecem o tempo todo na festa deles, que afetam um monte de gente que não tem nada a ver com a festa deles, e que eles também fingem que não estão nem aí.
Só porque não dá manchete de jornal, pessoal, não quer dizer que não acontece, viu?


V – Como fede a pequena-burguesia!

No correr da semana uma foliona do Garibaldis e Sacis publicou um pequeno artigo de opinião na Gazeta do Povo. Qualificou-se como advogada, e informou que freqüenta o bloco desde seu início. Pelo tom do artigo deduzo que seja uma socialite, ou algo parecido. Seu texto rescende intensamente à pequena-burguesia à qual me refiro.
Em outras palavras, diz que, no início, o bloco só congregava gente-bem. Hoje, “democratizou-se”. Usa a palavra como eufemismo para informar que agora ele convive com “os manos” (a palavra é dela). Acha “lindo” que isso aconteceu. Claro, não convidaria essas pessoas para uma festa (Deus-nos-livre) em sua casa, mas afinal, como diz a marchinha, a praça é do povo, então, vamos lá. Mas assegura, enfaticamente, que não devemos temer “os manos”.
Conclusão? Pau na PM. Merda na Geni.
Ouso supor que quando o carnaval mesmo chegar, e o povo-povo sair à Av. Cândido de Abreu para sua folia furreba, madame estará no litoral, onde, como boa foliona, acompanhará a Caiobanda, e/ou a Banda de Guaratuba, porque afinal ninguém é de ferro, e conviver com “os manos” um pouco já está muito bom. Talvez, quem sabe, na própria Sapucaí, por que não?
De verdade, gente, verdade mesmo, não tinha “manos”, no Largo, no domingo da guerra com a PM.
Eu estava lá.
Tinha arruaceiros. Alcoolizados, chapados de droga, descontrolados.
Uma enorme quantidade deles.
E foram eles a parcela – não pequena! – da multidão que provocou a polícia.
Os assim chamados “manos” são jovens de periferia, estigmatizados pela pequena-burguesia “foliona” e quetais, marginalizados de nossa sociedade e por isso adeptos de uma cultura e uma visão de mundo diferente e contestadora da nossa.
Na sua esmagadora maioria são apenas isso. Jovens, em grande parte revoltados pela situação em que nós, os privilegiados, os atiramos sem perspectiva de saída, mas cujas intenções não passam da simples contestação.
Ocorre que os delírios pequeno-burgueses tendem a estigmatizar e generalizar, colando na testa de todos eles, tão somente em razão de sua aparência diferente, um rótulo negativo e apavorante, como se todos não passassem de bandidos sanguinários, traficantes de drogas.
Eles possuem u´a maneira peculiar de se vestir e de se caracterizar que pode ser facilmente identificada. Como disse, eu estava lá. E não vi nenhum.
Viram como fede, a pequena-burguesia?
Pois é.
O que tinha era outro tipo de gente. Pobres e não pobres, vejam bem (olhaí o fedor, de novo). E repito. Estavam totalmente fora de controle, por causa do álcool e das drogas, que corriam livremente.
Não atiravam garrafas apenas contra as viaturas da PM. Faziam-no a esmo, a torto e a direito, inclusive sobre os automóveis estacionados ou que passavam pelas ruas adjacentes. O meu mesmo, foi vítima disso.
O que aconteceu foi uma simples tragédia anunciada.
Essas pessoas, já porque beberam demais e suas bexigas estão estourando e seus super-egos estão nocauteados, já porque são mal-educadas mesmo, além de tudo saem mijando por todos os recantos do Largo da Ordem e adjacências. São centenas delas a fazer do espaço público uma gigantesca latrina.
Já entrou em banheiro masculino de estádio de futebol em dia de Atletiba, perto da hora do final do jogo? Então multiplique mais ou menos por mil.
Quando a polícia diz que recebeu queixas de moradores, fala a verdade. Minha filha mesmo, falando em meu nome, foi uma que reclamou de som insuportavelmente alto e mijação na frente da casa onde há 60 anos mora minha mãe, de 85, ali dentro do “teatro de operações”.
Não é só a pequena-burguesia que fede. A urina que fica como resultado do pouco-se-me-dá dela também fede, e muito. Mas em outra dimensão. Esta física, sensorial. Mas igualmente insuportável.


VI – Os Sacis não têm nada com isso?

Têm. Como eu já disse, têm sim senhor. Eles fingem que não, mas é um erro.
Nossa socialite foliona já mencionada acima encerra seu artigo (e sua participação no meu) com uma citação puxada a ioruba (oba, olha eu aí entrando no clima, quem sabe eu vire um folião em breve – pra quem não sabe, ioruba é um idioma de origem africana que permeia toda aquela gíria baiana ligada ao carnaval de rua de Salvador), como convém a pessoas “in” na cultura baiana, outra que fornece um carnaval “pórreta” para a pequena-burguesia tupiniquim.
Como nem todos nós somos iniciados, elas nos faz o favor de informar que a citação equivale a dizer que “quem não tem competência não se estabelece”, em uma referência à incompetência da PM para lidar com a situação.
Engraçado.
Em uma manifestação anterior, no Facebook, no dia seguinte dos acontecimentos, ainda indignado com a arruaça e o comportamento alienado dos organizadores da festa, eu havia usado exatamente essa mesma expressão, mas dirigida a eles.
Penso que se vão juntar milhares de pessoas em uma praça pública, os Garibaldis e Sacis devem fornecer a elas, pelo menos, estrutura para que desfrutem da festa sem problemas.
No mínimo, devem oferecer uma quantidade suficiente de banheiros químicos para que as pessoas possam “se aliviar” civilizadamente.
Dizem eles que lhes faltam recursos.
Então, com todo o respeito, não façam a festa até amealhá-los.
Quem não tem competência não se estabelece.
Porque os outros, que não têm nada com isso, não têm nada com isso.
Até as pedras mais antigas do Largo da Ordem sabem que em qualquer sociedade civilizada o direito de um termina onde começa o do outro.  E que a cada direito corresponde um dever. O direito dos foliões é foliarem. Ok. E qual é o seu dever?
Existem pessoas que moram, que vivem, e que trabalham ali onde os Garibaldis e sua multidão vão uma vez por semana festejar.
Depois, eles todos vão embora para suas casas, felizes, curtidos na folia, purgados de seus pecados.
Deixam para trás o caos, a sujeira, a fedentina, a imundície.
Os moradores, esses ficam.
E são obrigados a conviver com o rastro imundo e insuportável deixado pela festa promovida pelos Garibaldis, que, como não canso de repetir, não estão nem aí. Fingem que não é com eles.
A própria Igreja da Ordem fechou suas portas a semana inteira, minha gente! Sabem lá vocês o que é isso?
Muitos desses moradores não são foliões. Aliás, a grande maioria não é.
Não participam da festa, sequer gostariam que ela estivesse lá.
Sentem-se, inclusive, incomodados por ela, enquanto ela dura.
É um direito deles, assim como é direito dos foliões, foliarem.
Onde fica o direito deles?
Onde fica o dever dos organizadores da festa?
O dever dos moradores é suportarem a festa.
E o dos festeiros?
O direito dos festeiros deveria terminar onde começa o dos moradores.         
Por que ninguém fala nisso?
Cadê a imprensa?


VII – Chega de hipocrisia

Chega de hipocrisia! Abaixo a pequena-burguesia!
Em 2013, para haver pré-carnaval no Largo da Ordem, que se exija da PM um planejamento rigoroso, um policiamento preventivo eficaz, e também um controle efetivo da higiene e da educação. Lembro a todos que no Rio de Janeiro, no carnaval, urinar em espaço público dá cadeia! E é a PM que vigia para que isso não aconteça, e prende quem não cumprir.
Por que não pode ser assim aqui também?
Em 2013, para haver pré-carnaval no Largo da Ordem, que se exija dos dirigentes do Bloco Garibaldis e Sacis que definam e assumam, por escrito, as suas responsabilidades. Eles não são apenas foliões descompromissados, simples festeiros, como querem parecer. São empreendedores. Organizam um evento com grande potencial explosivo, porque, mesmo sendo uma celebração de alegria e brincadeira, reúne milhares de pessoas durante horas, e no qual a bebida e a droga circulam livremente.
Devem garantir toda a estrutura da festa e se responsabilizar por ela, como, aliás, qualquer empreendedor de eventos o faz. Inclusive no que diz respeito a direitos e interesses de terceiros não participantes mas afetados por ela.
Caso contrário, tanto no que diz respeito à PM, que é responsável pela segurança, mesmo de eventos particulares, quando realizados em espaços públicos com permissão oficial, quanto no que diz respeito aos organizadores, minha opinião é a de que a Prefeitura de Curitiba deveria vetá-lo.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Que tal?

Em busca de novo visual.
Que tal este?

Desculpas

Desculpem a ausência de três dias. A correria está grande e, desde ontem, minha internet andava meio pífia. Várias pessoas têm me pedido comentários sobre os acontecimentos de domingo passado no Largo da Ordem envolvendo Garibaldis e Sacis e a Polícia Militar. Então, seja o que Deus quiser. Eles virão. Aguardem.

Meu Ponto de Vista – 3 – Cuba e os Diversos Aspectos da Liberdade (Parte III)

Em primeiro lugar, é preciso uma certa contextualização. Nos anos 50 do século passado, os Estados Unidos da América do Norte, nosso Grande Irmão, tratavam a América Latina como uma espécie de quintal dos fundos de sua casa. Na defesa de seus interesses geopolíticos e econômicos, e contando com a colaboração despudorada das pequenas elites locais, faziam dos países “ao sul do Rio Grande” (como se dizia então) o que bem entendiam, no mais aberto descaramento.
Não lhes fazia a menor diferença se os governos desses países fossem as mais cruéis ditaduras – aliás, preferiam que fosse assim. Na democracia é muito mais difícil manter o controle, dá trabalho, custa mais caro. Com mão-de-ferro é tudo mais fácil. Os EUA impuseram e sustentaram os tiranos mais sanguinários, em praticamente todos os países da região, sob a condição de que estes zelassem e protegessem seus (deles, EUA) interesses.
Deixem-me citar meia-dúzia que me vem à mente sem pensar muito: Stroessner, Pinochet, Batista, Castillo Armas, Duvalier (pai e filho), Médici & cia., Galtieri & cia. Há muitos outros cujos nomes felizmente não me lembro. Nada que não se resolva com cinco minutos de busca na internet.
Da mesma forma o Grande Irmão interveio, direta ou indiretamente, em todo e qualquer desses países (inclusive o Brasil, sabiam?, em 1964) onde surgisse o mais leve indício de indocilidade ante as ordens que de lá emanavam.
Não foram poucas, diga-se, as vezes em que essa intervenção se fez de forma até mesmo militar, armada.
É, para os que são mais novos isso pode parecer um despautério, mas o fato é que aconteceu. E em termos de história está logo ali. Faz pouquíssimo tempo. Sim, meninos, eu mesmo vi.
(Sei, sei, alguns dirão que lá, “do outro lado”, a União Soviética fazia o mesmo. É verdade. Fazia mesmo. Mas isso todos já sabemos há muito tempo, porque foi socado de forma incessante em nossa mente desde que nascemos. E o propósito aqui – lembram? – é restaurar a bilateralidade que nos foi sonegada. Certo? E esse lado, que estou comentando – o outro – sempre ficou meio escondidinho. Né?)
Ok. De volta ao tema.
A equação seria perfeita não fosse por um pequeno e insignificante detalhe: o povo. Quer dizer, a esmagadora maioria do povo dos países submetidos a ela. Este pagava o pato. E caro. Mantido na penúria, muitas vezes na miséria mesmo, ao povo cabia carregar o piano. Suar a camisa, recebendo em troca meras migalhas. E, mais ainda, fazer isso sem abrir o bico.
Bem.
Como já disse, cada vez que alguém, em algum lugar, ousava insurgir-se contra esse arranjo, lá vinha o porrete (exemplos há muitos; os mais notórios são Guatemala, 1954, Brasil, 10 anos depois, e Chile, 1973).
E Cuba.
Essa pequena ilha caribenha, pela grande proximidade com seu próprio território, era tratada pelos EUA como se verdadeiramente lhe pertencesse. Para ele, ali não era nem mesmo seu quintal; assemelhava-se mais a um banheiro da empregada. Cuba, para os americanos, era uma espécie de “América Latrina”.
Não vou aqui entrar em detalhes, porque o que já está muito longo ainda ficaria mais. Qualquer um pode dar uma busca na internet e ver a quantidade e a intensidade das humilhações às quais era submetido aquele povo. Isso sem falar na opressão e exploração, tradicionais em todos os outros.
...
Oh, vida... Vamos longe. Melhor encerrar por hoje. Não perca amanhã mais um pedaço.

(continua...)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Qual o futuro do PRONASCI?

          Deem uma olhada na matéria do link abaixo. É preocupante, mas ao mesmo tempo confirma o que temos escutado nos bastidores, isto é, que é só um freio de arrumação. Será? Para nós que gerenciamos Segurança Pública no Brasil, principalmente a nível municipal, será uma pena muito grande se ficar demonstrado que o Elio Gaspari, apesar de estar errado nas críticas que fez ao Pronasci, estiver certo quando diz que a presdente mandou "congelá-lo". Se o fez, é uma pena.  Esperemos que não. Esperemos que o que diz o Ministério se realize.

          Vale um pulinho lá.

          Despesas federais com segurança em 2011 - Contas Abertas

Meu Ponto de Vista - 3 - Cuba e os Diversos Aspectos da Liberdade (Parte II)

Pois é.
O tempo passou.
Hoje, oficialmente chegado à terceira idade, com o tempo de vida dobrado sobre aqueles tenros anos, não sou mais comunista.
Aliás, hoje sequer sei bem o que significa esta palavra. O socialismo real ruiu com o muro, levando junto minhas verdades e certezas. Além do mais, nada como a vivência do dia-a-dia para ensinar a realidade como ela de fato é. A experiência é tudo. Os índios é que sabiam das coisas.
Ficou, porém, intacta, dentro de mim, até hoje, a vontade de consertar o mundo.
Agora bem temperada pela noção de sua impossibilidade, ela converteu-se em algo mais realista. Contento-me em melhorá-lo tanto quanto estiver ao meu modesto alcance.
Permaneço prisioneiro, entretanto, como se ainda adolescente, de uma indomável indignação perante injustiças. Por isso, sempre que posso, assumo atitude militante ao lado dos excluídos.
Alguns diriam, pomposamente, que isso me mantém posicionado à esquerda do espectro ideológico. Outros, que esse tipo de rotulação está fora de moda.
De minha parte, acho que foi-se um invólucro inadequado, mas permaneceu a essência. E se me perdoam a confissão, orgulho-me disto.
Trata-se de um sentimento. Uma visão de mundo. Um traço de personalidade.
E o que tem essa baboseira toda a ver com o tema da conversa?
Simples. Dados os devidos descontos, consideradas as nuances que o tempo, a experiência e a maturidade me conferiram, ainda acredito que, no seu núcleo, a resposta que dava aos jornalistas, trinta anos atrás, não estava de todo errada.
Ei, não me entendam mal. Deixem-me esclarecer uma coisa, desde já, pra que não fique nenhum mal-entendido.
Vocês são testemunhas, mesmo pelos poucos textos que já publiquei aqui neste humilde blog, da defesa intransigente que faço da nossa recente democracia como caminho para aumentar cada vez mais as conquistas da cidadania brasileira. E, também, como celebro permanentemente tudo o que graças a ela já alcançamos.
Então, que fique claro: não sou cego nem hipócrita. Não apenas vejo como reprovo, censuro, e não aceito, de modo algum, as severas restrições às liberdades de expressão e de ir e vir, em Cuba.
Este primeiro ponto é pressuposto básico para que se possa abstrair todo e qualquer preconceito na tentativa de compreensão da análise global que faço neste Meu Ponto de Vista (e que é dividido em partes, porque será longo...).
Peço, então, que nos livremos todos desses dois vícios, a cegueira e a hipocrisia, e o façamos bilateralmente, quer dizer, do nosso sistema para o cubano, mas também do cubano para o nosso.
Ok?
Vamos lá.
Analisemos Cuba e sua Revolução, a partir de uma perspectiva histórica abrangente.
Façamo-lo, porém, mais adiante, no terceiro capítulo desta saga emocionante.

(continua...)




domingo, 5 de fevereiro de 2012

Meu Ponto de Vista - 3 - Cuba e os Diversos Aspectos da Liberdade (Parte I)


Eu sei, eu sei, eu sei. O propósito do blog é debater o Brasil. E Cuba fica fora. Ok. É verdade.
Mas mesmo assim, peço licença. Quem não estiver interessado, por favor pule esta parte.
Por outro lado, no mundo de hoje, tudo diz respeito a tudo. E de certo modo repercute aqui o que acontece em toda parte.
Por isso, me desculpem, mas acho que interessa, sim.
Então, vamos lá.
Houve um tempo da minha vida em que fui comunista. Acreditava, de forma idealista e até meio ingênua, que se poderia consertar o mundo mediante meia dúzia de medidas. Toda eram pré-definidas, vinham prontas em um pequeno pacote teórico-ideológico.
Exatamente nessa época veio a redemocratização do Brasil, e a legalização do PCB – Partido Comunista Brasileiro, ao qual eu era filiado. Membro de sua direção municipal em Curitiba, acabei ocupando algum espaço na imprensa. Afinal, os comunistas tinham sido os bodes expiatórios de todas as atrocidades que se haviam perpetrado no País até então, e éramos a grande novidade do cenário. Éramos, portanto, o objeto de toda a curiosidade.
À época, o Muro de Berlim ainda estava em pé, o Leste Europeu era “socialista”, e a Guerra Fria vivia seus últimos estertores. O mundo era bipolar, dividido entre Ocidente Capitalista e Oriente Comunista.
Estávamos no início da década de 1980.
Lembro-me de que nas entrevistas que então concedi, a grande questão era a liberdade. Tratava-se de consenso absoluto, entre todos os formadores de opinião, que nos países socialistas ela simplesmente não existia. E pronto. Isto, por si só, já bastava para que eles não prestassem. “Do lado de cá”, entretanto, não senhor. Aqui, a liberdade era plena, o que, a priori, nos absolvia completamente de tudo.
Era simples assim. Preto de um lado, branco de outro. Culpados e inocentes. Tudo resolvido.
Podíamos dormir em paz, nossas consciências tranquilas. Estávamos no lado certo. Éramos os mocinhos. Combatíamos o bom combate.
E aí, de repente, surgiam esses pentelhos comunistas, bem aqui, dizendo coisa diferente. Que história era essa? E vinham nos perguntar.
Entre outros, eu era um a responder. O problema era que nós éramos tão maniqueístas quanto eles. Havíamos sido submetidos a uma lavagem cerebral quase tão eficaz quanto. E para nós, o preto e o branco, o mocinho e o bandido, apenas mudavam de lado.
Eu estava cheio de certezas e verdades, todas elas tão absolutas quanto engessadas e absurdas.
Minha resposta no quesito liberdade, como todas as demais, vinha pronta e acabada. “Liberdade? Que liberdade? Liberdade não existe! Nos países capitalistas, liberdade nada mais é do que um bem que se compra com dinheiro!”.
E citava, petulante como costumam ser os jovens cheios de si, os carrinheiros pelos quais passava, todos os dias, sobre o viaduto Capanema, a caminho de casa. Maltrapilhos, precocemente envelhecidos, miseráveis, puxavam, com as mãos nuas, em carrinhos de madeira, enormes quantidades de papel, por longos trajetos para, ao fim, serem explorados por intermediários que lhes pagavam preços ínfimos e revendiam o papel com lucros estratosféricos.
Pedia, então, ao jornalista, que os entrevistasse, e perguntasse o que achavam da LIBERDADE que tinham para passar as férias, todo ano, nas Bahamas...
E exultava, triunfante.

(continua...)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Viva o STF!

Ontem a sociedade brasileira conseguiu mais uma importantíssima vitória.
Os membros do Judiciário podem, sim, ser fiscalizados diretamente pelo Conselho Nacional de Justiça!
Lenta, mas inexoravelmente, os valores democráticos vão se impondo.
Foi duro, foi apertado (6 a 5), mas a transparência venceu.
E caiu a última cidadela protegida das vistas da sociedade.
Sosseguem, céticos. Ainda falta muito, eu sei.
Mas reconheçam: é inegável que estamos avançando.
Então, que me perdoem os pessimistas, que só sabem ver a fotografia, isto é, o quadro estático, que ainda é ruim.
Acho muito mais correto ver o filme, que proporciona uma visão dinâmica. É ruim, sim, e isso nos motiva a persistir na luta para melhorar. Mas já foi muito pior, vem ficando melhor aos poucos mas continuamente, e isso nos mostra que a luta vale a pena.
Ainda há muito a fazer.
Até porque o próprio controle social permanece débil e claudicante.  A politização da população é pouca, e consiste no maior desafio. Mas o caminho está aberto.
Mãos à obra, portanto!
Continuo otimista.
Viva o STF, que aproveitou a chance que a História lhe colocou à porta, e mostrou-se à altura dela.
E viva o Brasil!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Homicídios

            Nesta semana a Secretaria Estadual de Segurança Pública divulgou as estatísticas de 2011, relativas à área. A maior preocupação, quando se inicia um mapeamento são os crimes mais graves. E o mais grave, claro, é o crime letal. O homicídio. Preocupa a todos, e com muito mais razão, aos gestores.
            No Paraná como um todo, os homicídios caíram, de 2010 para 2011, 5,8% (cinco vírgula oito por cento).
Alegra-me informar que em São José dos Pinhais esse índice é bastante maior. Varia, conforme a metodologia aplicada, entre 14% (catorze por cento) e 17% (dezessete por cento).
É o resultado de inúmeros fatores. Destaco, por relevante, o extraordinário nível de integração e cooperação que no ano de 2011 alcançaram, em nosso Município, as Polícias, Civil e Militar, e a Guarda Municipal.
Fenômeno raro, foram deixadas de lado vaidades e pretensões pessoais, e priorizado o interesse público. O encontro, no tempo e no espaço em São José dos Pinhais, de profissionais, tanto no topo como na base, no ano que passou, do mais alto gabarito, capacidade, e boa-vontade é em grande medida responsável por resultado tão auspicioso.
Não posso deixar de ressaltar também o papel das políticas preventivas, recém iniciadas pelo Município, de forma integrada por todos os seus gestores, mas que já encontram ressonância na auto-estima da comunidade, principalmente a mais carente, que pela primeira vez se enxerga como sujeito pleno de direitos.
No entanto, é preciso cautela.
O mês de janeiro de 2012 não foi nada animador.
De nada adiantará um ano bom se ele não configurar uma tendência. Os números caíram mas ainda são altos. Muito altos. Precisam se manter em queda.
E a julgar pelo primeiro mês do ano, é preciso redobrar o cuidado.
Abrir o olho e reforçar o trabalho.

Meu Ponto de Vista - 2 - O Pronasci

Recentemente, o jornalista Elio Gaspari, uma voz respeitadíssima em todo o Brasil, escreveu um artigo na imprensa nacional criticando acidamente o Pronasci – Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania, do Governo Federal.
Desde que assumi a Secretaria Municipal de Segurança, em São José dos Pinhais, tenho sido um ardoroso defensor desse mesmo programa. Inclusive, batalhei muito para trazer recursos dele para nossa cidade, e estamos desenvolvendo vários projetos, com resultados bem animadores.
Por isso, escrevi um modesto artigo contestando-o (uma espécie de Davi contra Golias), que foi publicado na Gazeta do Povo, jornal aqui da nossa região metropolitana de Curitiba.
Para quem estiver interessado, segue:


É Preciso Priorizar a Prevenção

No dia 4/1 Elio Gaspari publicou na Gazeta o artigo “Dilma Congelou o Pronasci”, com críticas a este Programa do Governo Federal.
Não poderia estar mais equivocado.
Firmado em um conceito ultrapassado de segurança pública, prega um modelo que felizmente vem sendo sepultado pelo povo brasileiro, na construção de sua jovem democracia, e sintetizado na seguinte frase: “A segurança pública é uma atribuição dos governos estaduais”.
O pensamento decorre de que estes últimos comandam as polícias, e endossá-lo é estar na contra-mão da história real do Brasil de hoje.
A ideia de que segurança pública é só polícia está superada. Apenas os saudosos do autoritarismo suspiram por ela.
O Pronasci é uma lufada de ar na masmorra que sempre foi o cenário brasileiro na área da segurança, e cuja melhor expressão é a concepção acima.
Ao contrário dela, incorpora o novo tempo. Oficializa a ideia-força de que a segurança pública JAMAIS vai melhorar se se resumir a ações de polícia. Elas são necessárias, claro, mas não bastam. É preciso priorizar a prevenção. O que não se faz só com viaturas nas ruas. No Brasil, prevenção é sinônimo de inclusão social. Ações que ofereçam aos jovens excluídos a perspectiva de uma vida digna do lado de cá da lei. Senão continuaremos enxugando gelo, como fizemos nos longos anos em que praticamos aquela máxima.
A consagração desse conceito – ações sociais de inclusão de jovens vulneráveis como uma questão de segurança pública em sentido estrito – é a gigantesca inovação do Pronasci. E é uma monumental quebra cultural de paradigma.
Mais ainda se pensarmos que as resistências a vencer incluem pessoas tidas por esclarecidas!
Claro que o Pronasci tem problemas gerenciais, que há verbas desviadas ou mal empregadas. Como não seria assim? A democracia brasileira é tenra, é enorme a diversidade de vícios dos quais temos que nos livrar, e cada um deles se encontra fortemente incrustado nas pessoas.
Cabe corrigir esses problemas. Mãos à obra!
No entanto, há méritos a constatar, conquistas valiosas a celebrar! Há bons gestores e estes tem o que mostrar!
Basta verificar o que já alcançaram, Brasil afora, os projetos “Mulheres da Paz”. “Protejo” e “Justiça Comunitária”. São, todos eles, pilares do Pronasci, executados pelos municípios em parceria com a União. É segurança pública da mais pura, sem governo estadual envolvido. É importante conferir isso antes de formar juízo.
Há histórias maravilhosas, vidas salvas, consciências despertadas, pessoas resgatadas. Há uma quantidade já apreciável de violência evitada, sorrisos de valor incalculável, esperança em almas antes desacorçoadas, emoções em olhos antes embaçados.
Pouco ainda, talvez, diante da imensidão do desafio.
Mas um começo. E animador.
E o ênfase na qualificação das polícias, principalmente para incutir-lhes visão comunitária? É também um caminho longo e árduo, mas é a única esperança de uma polícia melhor, e já foi iniciado. No Pronasci.
Outra quebra de paradigma é o Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGI-M).
Oferecer cidadania é dar às pessoas um pouco de tudo. Estes órgãos reúnem as secretarias municipais de corte social para, juntas, gerenciarem os projetos que afetam diretamente as populações mais fragilizadas, de forma a que os elementos caminhem juntos de forma otimizada e integrada, pondo fim à fragmentação gerencial que emperra tantas boas intenções.
Hoje muitos municípios já possuem GGI-M.
Os céticos dirão que existir não é o mesmo que funcionar bem.
É verdade. Porém, deu-se o primeiro passo. Este é um dos transatlânticos cujo curso necessitamos alterar. É tarefa difícil, porque são gigantescos, e apontar a proa na direção certa exige tempo e espaço de manobra. Mal começamos, mas as primeiras espumas já se distinguem à popa. Só não as vê quem teima em olhar para o outro lado.
A Conferência Nacional de Segurança Pública, em 2009, precedida de grande mobilização popular, aprovou o Pronasci como política de Estado, e não unicamente deste ou daquele Governo.
Todos os que se dedicam a examinar a questão percebem que os tempos são outros, os conceitos mudaram, e o Pronasci é o reconhecimento oficial disso.
A população, portanto, o aprova, o que não significa dizer que não carece de aprimoramento.